Porto Alegre, 22 de janeiro de 2026 Ano 20 - N° 4.559
Incentivos financeiros e qualidade do leite: o que funciona?
Ao longo de mais de 15 anos atuando diretamente na cadeia produtiva do leite, acompanhei de perto produtores, cooperativas e indústrias na jornada da qualidade, desde o início da regulamentação da Instrução Normativa nº 51 (IN 51) até a atual Instrução Normativa nº 77 (IN 77). Apesar das mudanças ao longo do tempo, alguns pontos seguem muito claros.
Um deles é que assistência técnica, sozinha, não sustenta programas de qualidade do leite. Ela é fundamental, mas precisa caminhar junto com incentivos financeiros bem estruturados para que o produtor realmente responda às exigências do mercado. Participei de diversos programas de qualidade que começaram com boas intenções, mas não avançaram.
Em uma dessas experiências, durante uma conversa com o presidente de uma cooperativa onde trabalhei, discutíamos ajustes nas bonificações por qualidade e volume. Ele foi direto: “Precisamos saber quais faixas de produção realmente respondem ao estímulo e quais não respondem”. Essa frase ficou marcada.
O mesmo raciocínio vale para a qualidade do leite. Faixas de bonificação por CPP (Contagem Padrão em Placas) e CCS (Contagem de Células Somáticas) só geram resposta positiva quando o incentivo financeiro é relevante. Quando o prêmio é baixo, o produtor não consegue justificar o investimento em manejo, nutrição, rotina de ordenha e infraestrutura. Por outro lado, penalizações claras para leite fora de padrão também têm efeito, desde que sejam previsíveis e bem comunicadas.
O mercado lácteo está cada vez mais exigente, e programas de qualidade precisam ser claros, mensuráveis e acompanhados de perto. O monitoramento contínuo dos resultados, aliado a uma assistência técnica focada em solução prática no campo, tende a gerar avanços consistentes. Além disso, laticínios que adotam uma política de qualidade clara e bem definida evitam desperdício de recursos. Quando as regras são objetivas, com faixas de bonificação e penalização bem ajustadas, o investimento feito retorna em forma de melhoria real do leite captado, e não apenas como custo adicional.
Esse alinhamento permite direcionar melhor os esforços da indústria, reduzir retrabalhos e construir um posicionamento estratégico mais sólido no mercado lácteo. Em um mercado volátil como o do leite, política leiteira bem definida, planejada e com estímulos corretos faz diferença. Produtor responde a sinal econômico. Ignorar isso é repetir erros que a cadeia já conhece há décadas. (Maximiliano Scopel Ardenghi/MilkPoint)
Grupo Piracanjuba entra no mercado de queijos finos com aquisição da Básel Lácteos
O Grupo Piracanjuba anuncia a aquisição da Básel Lácteos, indústria especializada em queijos finos, localizada no município de Antônio Carlos, em Minas Gerais, na região da Serra da Mantiqueira. A empresa familiar, cujos fundadores acumulam mais de 50 anos de experiência no setor, é reconhecida pela tradição e pela qualidade de seus produtos. Com a operação, a companhia goiana passa a contar com dez unidades industriais em funcionamento no Brasil.
A aquisição está alinhada ao plano de expansão do Grupo Piracanjuba no segmento de queijos especiais e à ampliação de sua presença nacional. Reconhecida por sua linha premium, que inclui variedades como Emmental, Gruyère, Maasdam e Gouda, a Basel Lácteos agrega valor ao portfólio da companhia e fortalece sua atuação em categorias de alto padrão.
Neste primeiro momento, o foco da empresa será a manutenção da linha de produção atual. “Nossa prioridade é preservar o que a Básel construiu até aqui. Para o futuro, a expectativa é ampliar gradualmente o portfólio e a capacidade produtiva da planta”, afirma o presidente do Grupo Piracanjuba, Luiz Claudio Lorenzo.
Instalada em uma região de forte tradição leiteira e características naturais privilegiadas, a fábrica está situada em um município com pouco mais de 11 mil habitantes, segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade de Antônio Carlos é conhecida pela produção de alguns dos queijos mais nobres do país, resultado da peculiaridade do leite local, influenciado pelo clima ameno, pela altitude e pelas pastagens naturalmente propícias à atividade agropecuária.
Transição planejada e ampliação de mercado
Atualmente, a distribuição da Básel está concentrada no estado do Rio de Janeiro. O planejamento prevê a expansão da comercialização para todo o território nacional, já sob a marca Piracanjuba.
A conclusão da transação está condicionada à aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Até que haja uma decisão definitiva do órgão, a Básel Lácteos e o Grupo Piracanjuba seguirão operando de forma autônoma e independente.
A companhia informa ainda que a intenção é manter todos os postos de trabalho diretos, atualmente em torno de 100 colaboradores, majoritariamente em funções fabris. Os produtores de leite que abastecem a unidade também serão visitados individualmente, em momento oportuno.
“Nosso objetivo é que essa transição ocorra da forma mais harmoniosa possível para colaboradores, fornecedores e para a comunidade local. Queremos reforçar o propósito do Grupo Piracanjuba, que é o cuidado que alimenta a vida. Para nós, nutrir relações é tão importante quanto nutrir pessoas, e isso começa pelo respeito ao nosso time e aos produtores de leite”, destaca Luiz Claudio.
Para os próximos anos, a companhia prevê investimentos na modernização da planta, no aumento da capacidade produtiva e na ampliação gradual do portfólio de produtos. (Grupo Piracanjuba)
SC estabelece restrições ao uso de leite em pó importado
A Lei nº 19.685/2025, sancionada nesta quarta-feira (21), proíbe, em Santa Catarina, a reconstituição de leite em pó de origem importada para comercialização como leite fluido. Além do leite em pó, a legislação também impede a reconstituição de composto lácteo em pó, soro de leite em pó e outros derivados lácteos.O objetivo da lei é preservar a cadeia produtiva do leite no estado, que possui forte presença no meio rural e relevância econômica para milhares de famílias. A medida tem caráter preventivo, uma vez que o leite UHT atualmente comercializado nos supermercados catarinenses não é produzido a partir de reconstituição.
De acordo com a justificativa do projeto, aprovada pela Assembleia Legislativa no final de 2025, a reconstituição de leite em pó importado poderia gerar distorções no mercado, ao competir com o leite fluido obtido diretamente dos produtores locais. Essa preocupação considera, sobretudo, a existência de políticas de incentivo em outros países que reduzem o custo de produção do leite em pó, o que poderia impactar a competitividade da produção catarinense.
A legislação estadual segue iniciativa semelhante adotada no Paraná, onde também foi identificada a possibilidade de utilização de leite em pó importado para reconstituição e venda como leite fluido.
Santa Catarina figura entre os principais estados produtores de leite do país, com uma base produtiva majoritariamente formada por propriedades familiares. A manutenção da competitividade do setor é vista como estratégica para a segurança alimentar, a economia regional e a sustentabilidade da atividade no estado.
A lei também estabelece que os recursos provenientes de eventuais multas aplicadas em caso de descumprimento da norma sejam destinados ao Fundo Estadual de Desenvolvimento Rural (FDR), com aplicação em ações de apoio à cadeia produtiva do leite, incluindo programas de fomento e incentivo à adoção de tecnologias. (As informações são da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina, adaptadas pela equipe MilkPoint)
Jogo Rápido
Salários
O percentual de negociações salariais que levaram a reajustes superiores à inflação atingiu 77% em 2025, uma queda em relação a 2024, quando chegaram a 84%, segundo dados preliminares do Dieese. O índice de preços considerado no cálculo é o INPC, que fechou o ano passado com alta de 3,90%. (Jornal do Comércio)
