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28/08/2020

 

Porto Alegre, 28 de agosto de 2020                                              Ano 14 - N° 3.295

Consumo de alimentos ganha fôlego com auxílio 

Benefício de R$ 600 e limitação de oferta elevam preços dos produtos

A quarentena mudou a rotina de muitos brasileiros. Em casa, as famílias tiveram de cozinhar mais, o que afetou a dinâmica de preços dos alimentos e estimulou a venda de produtos como margarina e linguiça. Mas, ainda que seja tentador atribuir aos novos hábitos o movimento nas gôndolas e a disparada de básicos como arroz e leite, é a limitação da oferta no campo e a sustentação proporcionada pelo auxílio emergencial que dão as cartas.

O Valor entrevistou executivos da indústria de alimentos, analistas e produtores rurais para compreender as razões das oscilações expressivas nos preços de alimentos. Ao consumidor, leite longa vida e arroz subiram mais de 15% ao longo do ano, um reflexo da situação no campo - não à toa, as cotações aos orizicultores gaúchos seguem no maior nível da história, e próximas disso aos pecuaristas.

Outros produtos agropecuários, como feijão, trigo e carne de porco, também enfrentam um cenário de limitação de oferta. O ritmo aquecido da exportações, particularmente de carne suína e bovina, e o encarecimento da importação por causa da apreciação do dólar, o que afeta leite em pó e trigo, também ajudam a explicar o movimento dos preços.

“É o auxílio emergencial que está mantendo o consumo. Não há dúvida. Mesmo com o aumento de preço, o consumo está acontecendo”, ressaltou o diretor de uma das maiores indústrias de carnes do país, que pediu anonimato. No segundo trimestre, Seara e BRF aumentaram em mais de 10% as vendas de alimentos processados. Na comparação com o período pré-pandemia, o volume vendido de itens como kibe que almôndegas cresceu 17%. No caso de hambúrguer, o alta bateu 10%.

Nas regiões Norte e Nordeste, a venda de produtos cárneos surpreendeu positivamente, acrescentou um executivo da indústria frigorífica. Citando dados da consultoria Nielsen, ele disse que, de maio a junho, as vendas de alimentos industrializados à base de carnes aumentaram mais de 5%.

Entre os produtos cárneos, avaliou a fonte, a demanda está mais aquecida por produtos de “baixo valor agregado”, como salsicha e linguiça. Nesse sentido, é perceptível diferença de oscilação de preços entre tipos de carne. Conforme o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o preço da linguiça subiu 6,4% no ano, ao passo que o filé mignon consumido nos domicílios registrou queda de 19,3% - nesse caso, o fechamento de restaurantes e churrascarias também pesou.

Quando se considera commodities como arroz, feijão e trigo - além de derivados -, a demanda também aumentou, mas a persistente valorização dos preços reflete, sobretudo, a menor oferta disponível. “No primeiro semestre, vendemos 10% mais arroz. Mas desde junho os pedidos vêm voltando aos patamares normais”, contou Renato Franzner, diretor de vendas da Urbano Alimentos.

No caso do arroz, os estoques estavam baixos, após a quebra da safra gaúcha da temporada passada. Somado à maior demanda internacional, que fez o Brasil elevar as exportações de arroz em casca, e à manutenção da procura nacional, os preços seguiram elevados.

Situação semelhante ocorre com o feijão. Com o estoques apertados após a quebra da primeira safra no início do ano, os preços não arrefeceram. “Passaremos um período de escassez”, disse o diretor de política agrícola e informações da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Sérgio De Zen. Ao consumidores, o preço do feijão aumentou entre 19% e 34% no ano, a depender da variedade, conforme o IPCA.

A Conab prevê que a terceira safra da leguminosa, ainda sendo colhida, crescerá 13,4%. Mas mesmo se confirmadas as previsões, ainda faltará feijão porque a terceira safra representa 23% do total produzido no país, e a próxima colheita será só no começo do ano que vem. “Ainda tem pouco produto disponível para comprar”, disse Franzner, da Urbano.

No mercado de trigo e derivados, a demanda também está aquecida. ”Só não se vende mais porque nossas capacidades produtivas estão limitadas. Há muita demanda para massas secas e massas frescas”, disse o representante da cooperativa gaúcha Cotriel, Cesar Pierezan.

Como no caso das outras commodities, a forte demanda e a menor oferta de trigo nos últimos meses fizeram os preços aos agricultores baterem recorde no Paraná e Rio Grande do Sul. Ao consumidor, os preços da farinha de trigo subiram quase 12% no ano, e o macarrão, 3%, acima do índice geral da inflação, que acumulou alta de só 0,46% no período.

Entre os laticínios, foi a combinação de menor oferta, fruto do atraso da safra no Sul, cautela dos produtores e aumento das vendas que fez os preços dispararem. Em meio às incertezas provocadas pela pandemia, muitos laticínios haviam indicado, ainda em abril, que a demanda seria menor e que os pecuaristas deveriam reduzir a produção. No entanto, o auxílio emergencial ampliou a demanda, disse o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Leite Longa Vida (ABLV) e sócio do Laticínios Jussara, Laércio Barbosa.

Cientes do papel do auxílio para amparar as vendas, os empresários já se preparam um cenário negativo com o fim ou redução do benefício. “Vamos passar este ano tranquilos. Mas em 2021 vamos pagar a conta”, reconheceu um executivo. (Valor Economico)

 
               

Leite/Europa
O calor extremo no meado de agosto na Alemanha e França resultaram em menor produção de leite. Observações preliminares concluíram que a produção não apenas foi menor do que na semana anterior, mas, também ficou abaixo de um ano atrás.
A produção de leite em junho de 2020 foi 1,5% acima em relação a junho de 2019, de acordo com a Eurostat. De janeiro a junho de 2020 a produção de leite ficou 1,4% acima da verificada entre janeiro e junho de 2019.

A variação da produção de leite, em alguns países, no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2019 foram: Alemanha (+1%); França (+0,7%); Irlanda (+3,5%); Holanda (+2,4%); e Itália (+3%), segundo o site CLAL.   
 
A produção de queijo no mês de junho de 2020 foi 4,3% maior do que a registrada em junho de 2019, de acordo com a Eurostat. No acumulado do ano até junho, subiu 2%.

As variações por países produtores, no primeiro semestre de 2020 e os seis primeiros meses de 2019 foram: Alemanha (=3,4%); França (-0,5%); Holanda (+2%); Itália (-0,3%). E Irlanda (+7,1%).

As exportações de queijo pela União Europeia (UE) de janeiro a junho atingiram 650.738 toneladas, volume igual ao registrado no mesmo período de 2019, de acordo com a Eurostat. Os maiores importadores em quantidades e variação percentual em relação a 2019 são: Reino Unido, 203.776 toneladas (-21%); Japão, 63.812 toneladas (+12%); e Estados Unidos, 52.344 toneladas (-12%).

No Leste europeu a produção de leite na Polônia em junho foi 4,6% superior à verificada em junho de 2019. No primeiro semestre a produção foi 2,8% superior ao volume de janeiro a junho de 2019. A variação da produção de algumas commodities lácteas na Polônia no primeiro semestre em comparação com o mesmo período de 2019 foram: queijo (+4,7%); manteiga (+10,7%); leite em pó desnatado (+3,6%) e leite em pó integral (-4,2%). (Usda – Tradução Livre: Terra Viva)

 

 

Qualidade/Chile

O aumento na concentração de matéria gorda e proteína é um dos aspectos de destaque do Boletim do Consórcio Lechero, revelando os avanços conseguidos pelo setor. O documento “Setor Lácteo: Produção e qualidade do leite processado no Chile” faz parte dos Indicadores Setoriais 2019, publicação do Consorcio Lehcero que desde 2014 analisa a informação sobre a produção nacional, sob a coordenação de René Anrique. 

Estes indicadores setoriais analisam os dados da produção por região e comunidade, número de fornecedores das indústrias, indicadores de qualidade como sólidos (matéria gorda e proteína). Contagem de Células Somáticas (CCS), e Unidades Formadoras de Colônias (CBT, sigla em português) e o avanço nos programas de erradicação de brucelose, tuberculose, leucose e PABCO, de forma a avançar nas metas propostas pelo setor, através do monitoramento da informação de 14 empresas processadores de lácteos, que representam quase 95% da captação nacional de leite, segundo o cadastro relatado pelo Departamento de Estatísticas (ODEPA). 

Um dos dados mais reveladores deste monitoramento é o nível dos componentes dos sólidos do leite, a parte comercial mais valorizada pela indústria de laticínios, um indicador que mostra o teor de matéria gorda e proteína, e que vem registrando aumento sustentado na produção nacional. A meta proposta pelo Consorcio Lechero era conseguir 7,6% de sólidos em 2019, e de acordo com o boletim, o percentual foi de 7,66% a nível de país, o que significa um notável aumento. Em 2012 o percentual era de 7,36%. Na região sul (La Araucanía a Los Lagos) este percentual foi de 7,7% em 2019, enquanto que na zona central (Bío Bío) foi de 7,2%. Este é um indicador dinâmico, que continuará adequando-se no futuro, à medida que as indústrias valorizam cada vez mais os sólidos. O consumidor está atento à proteína láctea como nutriente e a matéria gorda vem sendo reconhecida pela sua importância do ponto de vista da saúde e da nutrição. “Ambos componentes são reconhecidos economicamente, e impacto no preço pago ao produtor”. 

Enquanto as indústrias concentram-se nos sólidos para agregar maior valor aos produtos lácteos e ao leite que é distribuído ao consumidor. Para Octavio Oltra, o melhoramento nos parâmetros é resultado do esforço dos produtores e do apoio tecnológico que recebem tanto em genética como em alimentação, e que agora começam dar frutos.   O documento também apresenta indicadores nacionais sobre o avanço na qualidade higiênica do leite. O manejo sanitário, fruto do trabalho conjunto entre indústria e produtores, apresentando melhoramento nos indicadores CCS e CBT de forma consistente melhorando 20% e 28%, respectivamente de 2014 a 2019. Também há o avanço com o aumento da quantidade de leite procedente de fazendas oficialmente livres de brucelose (quase 97%) e tuberculose (90%). Por outro lado, hoje 83% do leite do Chile é procedente de propriedades que estão no programa PABCO o que implica em aumento de 38% em relação a 2014. (Diario Lechero - Tradução livre: Terra Viva)
                

 
Incertezas sobre tendência para os próximos meses
Líderes de entidades do setor de laticínios avaliam que não há clareza sobre o comportamento dos preços nos próximos meses. O cenário dependerá dos desdobramentos da pandemia de coronavírus e de seus impactos no consumo. Além disso, empresários e produtores seguem de olho na variação cambial, já que o dólar mais alto tende a dificultar importações. - Há uma sinalização de que os preços podem permanecer em patamar de recuperação. Mas existem muitas incertezas em razão da pandemia. Enquanto não houver vacina contra o vírus, vai ser difícil fazer qualquer tipo de previsão - pondera o presidente do Conseleite-RS, Rodrigo Rizzo. Apesar da elevação recente, a tendência de preços pode mudar rapidamente, porque o setor é influenciado por fatores diversos, reforça o presidente do Sindilat- RS, Alexandre Guerra: - A necessidade de produtores e indústria é de que os valores se mantenham no patamar atual. Os custos subiram muito. Nos últimos anos, o aumento de despesas e a redução nos ganhos foram motivos apontados para o encolhimento do setor no Rio Grande do Sul. Balanço da Emater-RS, de dezembro passado, dá dimensão desse movimento. De 2015 para 2019, o número de produtores gaúchos caiu cerca de 40%. Passou de 84,2 mil para 50,7 mil. Ou seja, 33,5 mil deixaram a atividade no Estado. (Zero Hora)
 
 

 

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