Porto Alegre, 1º de junho de 2026 Ano 20 - N° 4.642
Sindilat destaca desafios e oportunidades no Dia Mundial do Leite
Para marcar o Dia Mundial do Leite, celebrado nesta segunda-feira (1º/6), o Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (Sindilat/RS) se uniu às mais de 600 pessoas, entre produtores, estudantes, técnicos e autoridades, na cidade de Três de Maio (RS). Em um dos principais polos da bacia leiteira do Noroeste gaúcho, o presidente do Sindilat/RS, Guilherme Portella, destacou a importância do leite no desenvolvimento do estado. “O leite é central na economia de centenas de municípios gaúchos. Precisamos construir um ambiente que permita ao setor ter competitividade para as indústrias, rentabilidade ao produtor, eficiência e perspectiva de futuro. O diálogo entre todos os elos da cadeia é fundamental para que o Rio Grande do Sul siga como referência nacional na produção leiteira”, destacou no painel “Visão do Sindilat/RS sobre o futuro do setor leiteiro do RS”.
Entre as atividades realizadas no Parque de Exposições Germano Dockhorn, o painel Perspectiva do Setor Leiteiro – Leite do Futuro foi mediado pelo secretário-executivo do Sindilat/RS, Darlan Palharini. “Precisamos de políticas públicas fortes para proteger o mercado nacional, principalmente na questão da elevação da entrada dos importados, eliminar gargalos produtivos e fortalecer programas como o Programa Mais Leite Saudável, que contribuem para a qualidade, a assistência técnica e a competitividade do setor”, defendeu no painel que contou com a participação do engenheiro agrônomo e diretor da Transpondo – Desafios da Cadeia do Leite, Wagner Beskow, falando sobre gestão, tecnologia e eficiência produtiva. A programação incluiu ainda recepção temática com produtos lácteos, lançamento do concurso Produtor de Leite Destaque Amufron, apresentação da Expo Terneira 2026 e almoço de confraternização. (Assessoria de Imprensa Sindilat/Crédito: Jonatan Brivio)
Andres Padilla: demanda estagnada e pressão no consumo devem acelerar consolidação no leite
Em um cenário global marcado por transformações profundas na produção, no consumo e na dinâmica do comércio internacional de lácteos, eficiência, escala e capacidade de adaptação serão determinantes para a sobrevivência da atividade nos próximos anos. O alerta foi feito por Andres Padilla, do Rabobank, durante palestra no Milk Pro Summit, ao analisar os movimentos que vêm redesenhando o mapa global do leite.
Ao longo da apresentação, Padilla mostrou como as principais regiões produtoras do mundo vivem realidades distintas, mas convergem para um mesmo ponto: a necessidade crescente de eficiência operacional, gestão de risco e ganho de produtividade em um ambiente de margens mais apertadas e consumidores pressionados economicamente.
Um dos destaques da análise foi a China. Entre 2018 e 2023, o país promoveu uma transformação acelerada em sua cadeia leiteira, impulsionada principalmente pelo avanço das megafazendas. Segundo Padilla, a velocidade com que os chineses conseguem estruturar grandes projetos produtivos impressiona o mercado global. “Hoje, cerca de 50% das fazendas da China já ordenham mais de 5 mil vacas”, destacou. Apesar do crescimento expressivo nos últimos anos, a avaliação é de que o país esteja próximo de atingir seu limite de expansão produtiva. “Eles conseguiram fazer essa mudança muito rapidamente, mas será difícil continuarem crescendo no mesmo ritmo. Provavelmente já atingiram o teto”, avaliou.
Na Europa, o cenário caminha na direção oposta. Depois de um período de expansão impulsionado pelo fim das cotas de produção, a União Europeia deve enfrentar redução na oferta de leite nos próximos anos. O avanço das regulamentações ambientais, políticas de bem-estar animal, regras relacionadas ao uso da água, envelhecimento da população e aumento dos custos de produção vêm pressionando o modelo europeu.
A expectativa apresentada por Padilla é de uma queda de cerca de 5% na produção, mesmo com um rebanho aproximadamente 18% menor. Além disso, o excedente exportável europeu pode recuar até 40%, alterando significativamente a dinâmica do mercado internacional.
Diante desse contexto, os europeus buscam alternativas para preservar competitividade, incentivando a entrada de novos produtores, ampliando a produção de itens de maior valor agregado, diversificando mercados e fortalecendo as sinergias dentro da cadeia.
Já os Estados Unidos seguem em trajetória consistente de crescimento e consolidam presença cada vez maior no mercado internacional de lácteos. O avanço da produtividade por vaca e a integração entre as cadeias de carne e leite — especialmente com o modelo “beef on dairy” — aparecem como motores deste movimento.
Padilla destacou que a produtividade média das vacas norte-americanas saltou de aproximadamente 8 mil kg para 12 mil kg desde os anos 2000, um avanço de cerca de 40%. Paralelamente, a alta dos preços da carne bovina elevou significativamente a rentabilidade das fazendas leiteiras por meio da venda de animais oriundos do cruzamento entre gado leiteiro e de corte. “Boa parte da margem dos produtores norte-americanos está vindo do beef on dairy”, explicou.
Outro diferencial dos Estados Unidos está na gestão de risco. Segundo Padilla, os produtores americanos utilizam amplamente ferramentas de hedge e mercado futuro para proteção de preços. “O produtor nos EUA continua crescendo independentemente do cenário”, afirmou.
Enquanto isso, a América do Sul enfrenta um ambiente de maior volatilidade, marcado por oscilações frequentes na produção, influenciadas principalmente pelo clima, pelas questões macroeconômicas e pela instabilidade financeira.
No caso brasileiro, Padilla questionou uma percepção recorrente do setor: a ideia de que as margens no leite são necessariamente inferiores às observadas em outros países. “Em cinco dos últimos sete anos, o indicador RMCA (receita menos custo com alimentação) foi maior no Brasil do que nos Estados Unidos”, ressaltou.
Segundo ele, os resultados mostram que existe rentabilidade no sistema brasileiro, especialmente entre os produtores mais eficientes e de maior escala. A tendência, portanto, é de continuidade do processo de consolidação da atividade. “O ROIC aumenta significativamente entre os produtores maiores. Os grandes produtores devem continuar crescendo”, afirmou.
Entre os fatores que impulsionam essa consolidação estão os desafios relacionados à mão de obra, ao custo do capital e à necessidade de adaptação à volatilidade climática. Além das grandes potências tradicionais, Padilla também chamou atenção para o avanço de novos polos de produção leiteira, especialmente no Oriente Médio. Países da região vêm investindo pesadamente em megafazendas com foco em autonomia alimentar e redução da dependência de importações.
Ao abordar o consumo global, o executivo apontou que a demanda por lácteos atravessa um período de estagnação, pressionada principalmente pelo aumento do custo de vida. “A vida ficou mais cara para o consumidor comum”, afirmou.
Segundo ele, alimentos frescos passaram a ter tickets mais elevados quando comparados aos produtos industrializados, o que impacta diretamente o consumo em diversos mercados. Além disso, mudanças demográficas vêm alterando estruturalmente o perfil da demanda mundial.
O aumento do custo para formar famílias, a queda das taxas de fertilidade e o envelhecimento populacional em diversos países já geram reflexos importantes no setor lácteo. Padilla citou como exemplo o mercado de fórmula infantil, tradicionalmente relevante para a indústria de lácteos, mas que vem sofrendo impactos diretos dessas mudanças. Ao mesmo tempo, destacou o crescimento acelerado do mercado pet como um reflexo das novas dinâmicas sociais e de consumo.
Nos Estados Unidos, segundo ele, o consumidor global vive sob forte pressão inflacionária enquanto o valor dos ativos segue em alta, criando um ambiente de menor otimismo em relação ao futuro. “O consumidor está com dificuldade no dia a dia e menos otimista”, resumiu.
Ao final da palestra, Padilla reforçou que a produção global tende a acelerar sempre que houver rentabilidade positiva no campo, como ocorre historicamente com as commodities agrícolas. No entanto, alertou que a combinação entre demanda estagnada, mudanças de consumo e margens mais apertadas deve tornar o ambiente ainda mais competitivo. “A margem para erro será menor nos próximos anos”, afirmou.
Segundo ele, a rentabilidade tende a permanecer concentrada entre produtores e indústrias mais eficientes, enquanto diferentes distorções regionais continuarão influenciando a curva global de oferta — seja pelo avanço do “beef on dairy” nos Estados Unidos, pelos subsídios europeus, pelos prêmios pagos por volume no Brasil ou pelos investimentos públicos e privados em megafazendas na China, Argélia e Indonésia.
Na avaliação de Padilla, produtores sem crescimento consistente e sem margens positivas terão cada vez mais dificuldade de permanecer na atividade no longo prazo, ficando permanentemente expostos à volatilidade do mercado. (Milkpoint)
Produção de leite no Uruguai bate recorde e remessa aos laticínios cresce pelo 9º mês consecutivo
A produção de leite no Uruguai segue em forte crescimento. Em abril de 2026, os tambos uruguaios aumentaram em 9,7% o volume de leite remetido às indústrias em comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional do Leite (Inale).
O avanço confirma uma tendência consistente de recuperação do setor leiteiro uruguaio. Abril marcou o nono mês consecutivo de crescimento da remessa de leite às indústrias, em uma sequência positiva iniciada em agosto de 2025.
De acordo com o Inale, em abril de 2026 o ingresso de leite nas plantas industriais — considerando leite de produtores e leite próprio das indústrias — totalizou 164,7 milhões de litros, o maior volume já registrado para um mês de abril na história do país. O recorde anterior havia sido registrado em 2023, com 152,4 milhões de litros. No acumulado do primeiro quadrimestre de 2026, a produção uruguaia somou 634 milhões de litros, crescimento de 8,8% frente ao mesmo período de 2025. Já no acumulado dos últimos 12 meses móveis, entre maio de 2025 e abril de 2026, a remessa total atingiu 2,263 bilhões de litros, alta de 10,2% em relação ao período anterior.
Cresce também o envio de sólidos
Quando a medição é feita em sólidos lácteos — considerando gordura e proteína — o desempenho também foi positivo. Em abril de 2026, os tambos uruguaios enviaram 13,3 milhões de quilos de sólidos, aumento de 9,1% sobre abril de 2025.
No acumulado de janeiro a abril, o volume chegou a 50 milhões de quilos de sólidos, avanço de 10,1% na comparação anual. Já no último ano móvel, o total atingiu 176 milhões de quilos de sólidos, crescimento de 11,5% frente aos 12 meses anteriores.
Segundo a série histórica do Inale, o maior registro mensal da história ocorreu em outubro de 2025, quando a remessa alcançou 222 milhões de litros. O menor volume da série foi registrado em maio de 2003, com 68,7 milhões de litros.
Qualidade do leite
O teor de gordura do leite uruguaio também apresentou leve melhora. Em abril de 2026, o conteúdo de gordura atingiu 4,20%, acima dos 4,16% registrados no mesmo mês de 2025. Na média de todo o ano de 2025, o teor de gordura ficou em 3,96%, cerca de 1% superior ao observado em 2024.
Já o teor de proteína foi de 3,63% em abril de 2026, ligeiramente abaixo dos 3,70% registrados em abril do ano passado. Ainda assim, a média de 2025 fechou em 3,58%, também cerca de 1% acima do ano anterior.
Melhor ano da história
O relatório do Inale mostra ainda que 2025 foi o melhor ano da história recente da produção leiteira uruguaia. No ano passado, o país remeteu 2,212 bilhões de litros às indústrias, crescimento de 8,4% sobre 2024 e o maior volume anual já registrado neste século.
Antes disso, a produção havia somado:
2,040 bilhões de litros em 2024;
2,114 bilhões em 2023;
2,089 bilhões em 2022;
2,118 bilhões em 2021;
2,078 bilhões em 2020;
1,970 bilhão em 2019;
2,063 bilhões em 2018;
1,924 bilhão em 2017;
1,775 bilhão em 2016.
O menor volume anual da série foi registrado em 2002, com 1,109 bilhão de litros. (As informações são do El Observador, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint)
Jogo Rápido
PIB cresce 1,1% no primeiro trimestre de 2026
No primeiro trimestre de 2026, o PIB cresceu 1,1% frente ao quarto trimestre de 2025, na série com ajuste sazonal. Pela ótica da produção, destaca-se o crescimento da Agropecuária (2,0%). Também houve alta na Indústria (1,0%) e nos Serviços (0,5%). Em valores correntes, o PIB totalizou R$ 3,3 trilhões, sendo R$ 2,8 trilhões referentes ao Valor Adicionado (VA) No mesmo período, a taxa de investimento foi 16,5% do PIB, permanecendo abaixo da observada no mesmo período do ano anterior (17,6%). Já a taxa de poupança ficou em 15,5% no trimestre (ante 15,8% no mesmo período de 2025). Em relação ao 1º trimestre de 2025, o PIB avançou 1,8%, com crescimento na Agropecuária (0,7%), na Indústria (1,6%) e nos Serviços (2,1%). (Terra Viva)