Porto Alegre, 29 de maio de 2026 Ano 20 - N° 4.641
CNA lamenta suspensão dos efeitos do antidumping do leite
Decisão da Camex reconhece a prática desleal, mas suspende a aplicação das tarifas
Brasília (29/05/2026) – A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) lamentou a decisão do Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) de não aplicar imediatamente medidas contra o comércio desleal na importação de leite em pó da Argentina e do Uruguai.
O governo reconheceu a prática de dumping, mas decidiu suspender a aplicação das tarifas, mesmo com a recomendação técnica. Com isso, o setor produtivo permanece exposto às comprovadas práticas desleais de comércio, demonstradas pela CNA ao longo da investigação.
A suspensão foi decidida em função de preocupações do governo com eventuais reflexos negativos na economia.
Os produtores brasileiros de leite têm enfrentado concorrência com preços artificialmente baixos nos últimos anos, e as importações bateram novo recorde em 2026. A Argentina e Uruguai foram responsáveis por 90% dos 604 milhões de litros de leite equivalentes, a preços carregados de distorções de até 60%.
O mecanismo adotado para suspender as tarifas foi a abertura de avaliação de interesse público para que o governo estude os impactos na economia e nas relações diplomáticas com Mercosul.
A CNA, no entanto, destaca que a correção de práticas desleais não trará efeitos negativos na economia, uma vez que o peso do leite em pó ao consumidor final está excluído da investigação. Além disso, essa categoria representa peso diminuto no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de apenas 0,2% na média dos últimos cinco anos.
“Os principais lácteos consumidos pelos brasileiros, com destaque para o leite longa vida, queijos, e outros produtos derivados não serão afetados”, explicou o assessor técnico da CNA Guilherme Souza Dias.
Com o resultado da reunião do Gecex/Camex, na quinta (28), a CNA continuará trabalhando para reverter o cenário e garantir a efetiva defesa comercial da produção nacional de leite diante das já comprovadas práticas desleais de comércio.
“A luta ainda não acabou, seguiremos dialogando com o governo para conquistar a legítima defesa comercial para nossos produtores leite”, comentou o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite, Jônadan Ma.
Relembre o caso e as ações da CNA
Agosto 2024 – CNA protocola petição no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) solicitando investigação de dumping na importação de leite em pó da Argentina e do Uruguai
Dezembro 2024 – O governo acata o pedido da CNA com base nos indícios encontrados pela Confederação. Argentina e Uruguai estariam vendendo o leite em pó mais barato aqui no Brasil do que em seus próprios países, caracterizando o dumping.
Agosto 2025 – MDIC altera o entendimento vigente há mais de 25 anos, alegando que o leite fluido dos produtores não é similar ao leite em pó.
– A CNA reage, apresentando novas provas que comprovam que o leite fluido dos produtores tem sido substituído por leite em pó a preços de dumping, além de incluir um parecer internacional que atestou de forma clara que “do ponto de vista da defesa comercial e de políticas públicas” o novo entendimento do Decom “não faz sentido”.
Junto à FPA, FPPL e entidades, se reúne com o MDIC para contestar a decisão, pois o novo entendimento excluiria os produtores de leite do acesso à defesa comercial.
Outubro 2025 – O presidente da CNA, João Martins, grava um vídeo reforçando o pedido ao ministro Geraldo Alckmin. “Agora é hora de agir com responsabilidade e sensibilidade”, disse.
Dezembro 2025 – Em importante vitória para o setor, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, anuncia que o recurso da CNA foi aceito e a investigação foi retomada
Abril 2026 – O Departamento de Defesa Comercial (Decom) do MDIC publica Nota Técnica com Fatos Essenciais, que encontrou margens de dumping que chegaram a 60% para Argentina e 50% para o Uruguai.
Maio 2026 – Na 237ª reunião do Gecex foi reconhecido o dumping e aprovadas as tarifas, mas com receio de prejuízos em relações diplomáticas e impactos na economia, governo suspende os efeitos e abrirá uma avaliação de interesse público. (CNA)
"O mundo pede mais Brasil", diz Roberto Rodrigues ao alertar agro sobre uma era de incertezas
Durante palestra no Milk Pro Summit, Rodrigues traçou um panorama sobre as perspectivas do agronegócio brasileiro em meio ao que definiu como uma "era da incerteza", marcada pela perda de protagonismo das organizações multilaterais, pela desordem institucional global e pela crescente instabilidade política e econômica no mundo.
Em um mundo marcado por guerras, polarização, insegurança e rearranjos geopolíticos, o Brasil voltou ao centro das atenções globais — e, para o engenheiro agrônomo e ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, o agronegócio brasileiro terá papel decisivo neste novo ciclo econômico e social.
Durante sua palestra no Milk Pro Summit, Rodrigues traçou um panorama sobre as perspectivas do agronegócio brasileiro em meio ao que definiu como uma “era da incerteza”, marcada pela perda de protagonismo das organizações multilaterais, pela desordem institucional global e pela crescente instabilidade política e econômica no mundo. “O mundo está olhando para o Brasil com bons olhos por causa dos alimentos, da energia e da disponibilidade de terras. Existe boa vontade em relação ao Brasil lá fora, mas ela muitas vezes não se materializa por questões jurídicas. É um cenário complexo, de insegurança e desordem”, afirmou.
Segundo ele, a geopolítica mundial atravessa um momento de transformação profunda, com novos arranjos globais sendo construídos ao mesmo tempo em que antigas estruturas perdem força. Neste ambiente, o agro brasileiro passou a ocupar posição estratégica. “Estamos vivendo um tsunami que entrou no território agrícola brasileiro”, disse.
Apesar das incertezas, Rodrigues destacou que o Brasil reúne características únicas para assumir protagonismo global, especialmente diante de quatro dos principais desafios contemporâneos: a segurança alimentar, transição energética, mudanças climáticas e desigualdade social. Chamados por ele de “os modernos cavaleiros do apocalipse”, esses fatores devem redefinir a economia mundial nas próximas décadas.
A segurança alimentar, segundo o ex-ministro, deixou de ser apenas uma questão de abastecimento e passou a representar estabilidade política e social. Ao mesmo tempo, a busca global pela descarbonização amplia a importância de países capazes de produzir energia renovável e alimentos de forma sustentável.
Nesse contexto, o Brasil surge como uma potência singular.
“Devemos aumentar a produção? Sim. Mas onde? Os avanços tecnológicos permitem ampliar a produtividade sem desmatamento”, ressaltou. Rodrigues destacou que as projeções para a produção mundial de alimentos até 2026/2027 colocam o Brasil como o país com as maiores perspectivas de crescimento, acima de 40%, impulsionado por quatro fatores centrais: tecnologia, empreendedorismo, disponibilidade de terras e políticas públicas.
Entre os diferenciais competitivos brasileiros, ele chamou atenção para modelos produtivos praticamente inexistentes em outros países, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), além da matriz energética nacional, composta por cerca de 50% de fontes renováveis. “O mundo fala: Brasil, aumenta a produção — e a gente finge que não é conosco”, provocou.
Para Rodrigues, o potencial brasileiro, no entanto, depende diretamente da capacidade de organização interna do setor. Segundo ele, o país precisa construir uma estratégia integrada para transformar sua força produtiva em liderança econômica efetiva.
“Nosso time campeão é o agro”, afirmou.
O ex-ministro defendeu uma agenda estruturada envolvendo infraestrutura e logística, política de renda, comércio internacional, diplomacia, acordos comerciais, combate ao neoprotecionismo, fortalecimento da imagem do agro brasileiro, segurança jurídica, conectividade no campo, digitalização, inteligência artificial, bioinsumos, sustentabilidade, irrigação e agricultura circular.
Também reforçou a importância da organização das cadeias produtivas, da agregação de valor e da inclusão social como pilares para ampliar a competitividade brasileira no mercado internacional.
No caso do leite, Rodrigues fez uma provocação direta ao setor ao questionar por que o Brasil ainda não alcançou protagonismo global semelhante ao obtido em outras cadeias agroindustriais. “Hoje somos os maiores produtores de café, suco de laranja e tantos outros produtos. Mas e as frutas? E o leite? Por que não? Porque precisamos nos organizar”, afirmou.
Segundo ele, a construção desse avanço passa necessariamente pelo fortalecimento da relação entre produtores, indústria e cooperativas. “Tem que haver entendimento entre produtor e indústria, e a cooperativa tem papel fundamental nisso. Essa cadeia precisa se organizar cada vez mais”, destacou.
Ao abordar sustentabilidade e gestão de risco, Rodrigues também reforçou a importância do seguro rural como ferramenta essencial para garantir estabilidade ao produtor diante das crescentes incertezas climáticas e econômicas.
Na avaliação do ex-ministro, o Brasil ainda precisa desenvolver uma relação cultural mais forte com sua agricultura, algo que, segundo ele, já acontece em diversos países europeus. “Os europeus têm orgulho da agricultura deles. Isso faz parte da cultura. Precisamos seguir neste caminho”, concluiu.
Ao longo da palestra, Roberto Rodrigues reforçou que o momento atual representa, ao mesmo tempo, um período de turbulência e uma oportunidade histórica para o Brasil. Em um cenário global cada vez mais pressionado pela necessidade de produzir alimentos, energia e sustentabilidade, o país possui ativos estratégicos raros — mas precisará transformar potencial em organização para assumir o protagonismo que o mundo já espera dele. (Milkpoint)
EMATER/RS: Informativo Conjuntural 1921 de 27 de maio de 2026 - BOVINOCULTURA DE LEITE
O cenário é de atenção ao manejo alimentar e sanitário dos rebanhos para minimizar os impactos da menor oferta forrageira e para manter a produção leiteira dentro do esperado para a época do ano. As condições meteorológicas favorecem os trabalhos de higiene e manejo de ordenha, refletindo na qualidade do leite.
Na região administrativa da Emater/RS-Ascar de Bagé, houve necessidade de ampliação do fornecimento de feno e silagem, os quais não apresentam o mesmo potencial de resposta produtiva do que as pastagens de alta qualidade. Nas propriedades com potreiros de trevo já estabelecidos, foram observados melhores índices de produção em razão da elevada digestibilidade e do alto teor de proteína dessa forrageira.
Na de Caxias do Sul, as condições corporais e sanitárias estão satisfatórias, refletindo na boa qualidade do leite produzido. Além do pastejo, os rebanhos recebem suplementação com pré-secados e silagem.
Na de Ijuí, a produção de leite está em elevação, impulsionada pelo aumento do número de animais em lactação.
Na de Passo Fundo, as condições sanitárias estão adequadas, e a produção dentro da normalidade para o período. Os lotes de maior produtividade estão sendo alocados nas pastagens de inverno, conforme a disponibilidade.
Na de Pelotas, a produção reduziu em diversos municípios devido às limitações de oferta de forragem. A suplementação alimentar com silagem foi intensificada. No município sede, os criadores reforçam as medidas preventivas contra a tristeza parasitária bovina, devido à incidência de carrapatos e à ocorrência de alguns casos da doença.
Na de Santa Maria, houve queda na produção e redução do escore de condição corporal.
Na de Santa Rosa, o tempo firme e as temperaturas máximas e mínimas propícias ao conforto térmico animal permitiram a realização da inseminação artificial das matrizes em cio. Em algumas pastagens de inverno, iniciou o pastoreio rotativo, mas o fornecimento de silagem ainda é necessário para suprir a demanda nutricional dos animais. Devido à maior oferta de forragens de estação fria com maior palatabilidade, como trigo e aveia, houve aumento na produtividade leiteira. Os produtores iniciaram a redução do teor de proteína bruta (PB) na ração, passando de 22% para 18%, para diminuir os custos de produção. Além disso, em razão do elevado teor de umidade das forrageiras, o esterco está mais fluido, levando os produtores a incrementarem o fornecimento de feno na dieta dos animais.
Em Caibaté, a Secretaria da Agricultura, em parceria com a Emater/RS-Ascar, iniciou um programa de fomento à atividade leiteira, com realização de contatos e visitas técnicas. As propriedades aderentes ao programa recebem aplicação de vermífugos e de carrapaticidas, balanceamento da dieta do rebanho, orientações sobre higiene do leite, entre outras ações. (Emater/RS)
Jogo Rápido
Próxima semana deve ser de temperaturas baixas em todo o RS
Na próxima semana, as temperaturas deverão se manter baixas e sem grandes variações em todo o território gaúcho. É o que aponta o Boletim Integrado Agrometeorológico 22/2026, produzido pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), em parceria com a Emater/RS-Ascar e o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga). Entre a sexta-feira (29/05) e o domingo (31/05), o deslocamento de um novo sistema de baixa pressão poderá trazer instabilidade para algumas regiões pontuais do estado. Dessa forma, há previsão de chuva, principalmente na metade norte do Rio Grande do Sul. Na metade sul, deverá haver apenas aumento gradual da nebulosidade, com chuvas de baixa intensidade previstas apenas para pontos isolados. Na segunda-feira (01/06), na terça-feira (02/06) e na quarta-feira (03/06), uma massa de ar frio e seco voltará a deixar o tempo estável em praticamente todo o Estado. Por conseguinte, as temperaturas deverão apresentar apenas uma leve queda, e não há previsão de chuva significativa. Os acumulados de precipitação deverão variar entre 0 mm e 20 mm ao longo da semana. Na metade sul, não há acumulados significativos previstos. O boletim agrometeorológico atualiza semanalmente a situação de diversas culturas e criações de animais no RS. Acompanhe todas as publicações agrometeorológicas da Secretaria em www.agricultura.rs.gov.br/agrometeorologia. (SEAPI)