Pular para o conteúdo

20/02/2026

Porto Alegre, 20 de fevereiro de 2026                                                    Ano 20 - N° 4.577


Mercado de trabalho na indústria de laticínios: desafios e novas demandas até 2026

A transformação tecnológica e regulatória da cadeia do leite avança em ritmo acelerado - mas a qualificação da mão de obra não acompanha na mesma velocidade. O descompasso entre as competências exigidas e as disponíveis já impacta operações, custos e eficiência.

A indústria de laticínios vive um momento de transição estrutural. Ao mesmo tempo em que enfrenta margens pressionadas, maior exigência regulatória e demandas crescentes por sustentabilidade, o setor se depara com um desafio cada vez mais evidente: a dificuldade de formar, atrair e reter profissionais qualificados ao longo de toda a cadeia do leite.

Esse cenário não é exclusivo do Brasil. Tendências globais indicam que, até 2026, o mercado de trabalho da indústria láctea será fortemente impactado por mudanças tecnológicas, demográficas e organizacionais. Para produtores, cooperativas e indústrias, compreender esse movimento deixou de ser apenas uma questão de recursos humanos e passou a ser um fator estratégico de competitividade.

A importância do setor e o peso do emprego na cadeia do leite

A cadeia do leite é reconhecida internacionalmente como uma das mais relevantes na geração de empregos no meio rural e agroindustrial. Segundo a FAO, poucas cadeias agroalimentares apresentam tamanho efeito multiplicador sobre o emprego, conectando produção primária, indústria, logística, qualidade e comercialização.

No Brasil, dados do CEPEA/USP mostram que o agronegócio responde por mais de um quarto das ocupações no país, com a agroindústria de alimentos — incluindo laticínios — exercendo papel central na absorção de mão de obra fora da porteira. A estrutura do setor é heterogênea: pequenas indústrias regionais convivem com cooperativas e grandes grupos industriais, cada qual com demandas específicas de qualificação profissional.

Essa diversidade, embora seja uma força do setor, também amplia os desafios de gestão de pessoas e formação técnica.

O lado dos candidatos: por que faltam profissionais?

Um dos principais gargalos do mercado de trabalho na indústria de laticínios é o descompasso entre as competências disponíveis e aquelas exigidas pelas operações modernas.

Estudos sobre a organização do trabalho no setor mostram que grande parte da mão de obra ainda é formada predominantemente na prática, com pouca formação técnica formal. Esse modelo funcionou durante décadas, mas se torna cada vez menos suficiente diante da automação, da digitalização dos processos e da complexidade regulatória atual.

Além disso, a indústria enfrenta dificuldade crescente em atrair jovens profissionais. Relatórios da FAO e da OECD apontam o envelhecimento da força de trabalho no meio rural e agroindustrial como uma tendência global. Muitos jovens não percebem o setor lácteo como uma carreira atrativa, especialmente quando comparado a outros segmentos industriais ou tecnológicos.

A ausência de planos de carreira claros, de comunicação sobre oportunidades técnicas e gerenciais e de ambientes de trabalho mais estruturados contribui para essa percepção.

O lado das empresas: escassez, rotatividade e pressão por qualificação

Para as empresas, o desafio vai além de preencher vagas. Há uma escassez estrutural de profissionais com competências técnicas intermediárias e avançadas, especialmente em áreas como:

operação e manutenção de processos automatizados;
controle e garantia da qualidade;
gestão de produção;
sustentabilidade e conformidade regulatória.
Relatórios da OECD indicam que setores industriais de processo contínuo, como laticínios, estão entre os mais impactados pelo chamado skills shortage. No Brasil, esse cenário é agravado por limitações regionais de oferta de formação técnica e pela concorrência com outros setores industriais.

Outro ponto crítico é a pressão regulatória. Exigências relacionadas à segurança de alimentos, rastreabilidade, bem-estar animal e sustentabilidade demandam equipes mais qualificadas e atualizadas. A FAO destaca que muitas empresas enfrentam dificuldades para acompanhar essas mudanças apenas com treinamentos pontuais, o que aumenta riscos operacionais e custos de não conformidade.

Organização do trabalho e bem-estar: um tema cada vez mais estratégico

Pesquisas científicas recentes mostram que a forma como o trabalho é organizado na cadeia do leite impacta diretamente a produtividade, a retenção de pessoas e a sustentabilidade do negócio.

Estudos publicados no periódico Animal indicam que melhorias na organização do trabalho — como divisão clara de funções, melhor gestão de turnos e uso adequado de tecnologia — estão associadas a maior eficiência operacional e maior satisfação dos trabalhadores em sistemas leiteiros modernos.

Esse tema ganha relevância em um contexto de escassez de mão de obra: reter pessoas passa a ser tão importante quanto contratar.

O que muda até 2026: novas demandas do mercado de trabalho

As tendências apontam que, até 2026, o setor lácteo demandará profissionais com um perfil diferente do tradicional.

A digitalização avança rapidamente, com maior uso de sensores, sistemas de controle em tempo real e análise de dados. Isso aumenta a demanda por técnicos e profissionais capazes de interpretar informações, operar sistemas integrados e tomar decisões baseadas em dados.

Outro eixo central é a sustentabilidade. A pressão por redução de impactos ambientais, eficiência no uso de recursos e conformidade com padrões internacionais cria espaço para profissionais que consigam integrar produção, meio ambiente e gestão.

Nesse contexto, cooperativas ganham protagonismo. Estudos da OECD mostram que modelos cooperativos bem estruturados conseguem diluir custos de capacitação e criar programas coletivos de formação, beneficiando produtores e indústrias simultaneamente.

Reflexões finais

O mercado de trabalho na indústria de laticínios passa por uma transformação silenciosa, mas profunda. A escassez de mão de obra qualificada, o envelhecimento da força de trabalho e o aumento da complexidade operacional não são desafios conjunturais, mas estruturais.

Para produtores, cooperativas e indústrias, investir em qualificação técnica, repensar a organização do trabalho e fortalecer a conexão com instituições de ensino deixa de ser uma opção e passa a ser um fator decisivo de competitividade.

Até 2026, a capacidade de atrair, desenvolver e reter pessoas será tão estratégica quanto a eficiência produtiva ou a gestão de custos na cadeia do leite (Milkpoint)


EMATER/RS: Informativo Conjuntural 1907 de 19 de fevereiro de 2026

BOVINOCULTURA DE LEITE 
 
A condição corporal geral dos rebanhos está satisfatória. No entanto, as altas temperaturas impuseram desafios ao sistema produtivo, exigindo ajustes no manejo para mitigar o estresse térmico das vacas em lactação, além de afetarem a produção em algumas regiões. Para mitigar os efeitos das condições meteorológicas, foram utilizados ventiladores e aspersores, adequados os horários de pastejo e oferecido mais sombra e água. Em algumas propriedades, intensificou-se o fornecimento de silagem durante o dia para assegurar consumo ideal de matéria seca. O tempo seco favoreceu a higiene dos úberes e das áreas de ordenha, contribuindo para a manutenção da qualidade do leite. Ainda assim, as estratégias adotadas elevaram os custos de produção e demandaram maior tempo de mão de obra. 

Na região administrativa da Emater/RS-Ascar de Bagé, foi realizada rodada de revisão nos animais que participarão da 8ª Expofeira e do Trator Fest diretamente nas propriedades, com discussão de critérios técnicos para escolha dos exemplares e de outros temas relevantes à bovinocultura de leite. As condições climáticas têm afetado o bem-estar e o desempenho das matrizes em lactação, com reflexos negativos sobre a produção. Ainda assim, as vacas apresentam, de modo geral, boa condição corporal. 

Na de Caxias do Sul, o uso de forragens conservadas, como feno, pré-secado e silagem de milho, foi intensificado como estratégia para compensar a menor oferta de pasto e manter o aporte nutricional do rebanho. 

Na de Frederico Westphalen, a produção apresentou pequena retração, associada às altas temperaturas registradas na última semana e à irregularidade das chuvas na região.  

Na de Passo Fundo, o escore corporal das vacas está apropriado, e a produtividade em patamares satisfatórios.  

Na de Pelotas, registrou-se a ocorrência de estresse térmico, redução no consumo de matéria seca e queda na produção em diversas localidades. As precipitações recentes contribuíram para uma leve recuperação das pastagens. Contudo, em parte das áreas, os volumes ainda são insuficientes para restabelecer plenamente a oferta de forragem e a estabilidade produtiva. 

Na de Porto Alegre, como forma de amenizar o estresse causado pelo calor intenso, foram necessários ajustes nos horários de pastejo. 

Na de Santa Rosa, houve redução significativa no número de inseminações artificiais realizadas, associada ao aumento do índice de retorno ao cio, estimado em torno de 30%, o que indica menor taxa de concepção no período. (Emater editado pelo Sindilat)

Fim de semana deve ser de tempo estável em grande parte do Estado

Já a previsão para a próxima semana indica previsão de chuva na maior parte do Rio Grande do Sul

Para o final de semana, a previsão é de tempo estável em grande parte do RS com incidência de chuvas isoladas na metade Oeste. Em algumas localidades da metade Sul, as temperaturas podem apresentar leve declínio no domingo (22/2). Já para a próxima semana, a previsão do tempo indica chuva em grande parte do território gaúcho.

As informações constam no Boletim Integrado Agrometeorológico 08/2026, produzido pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), em parceria com a Emater/RS-Ascar e o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).

Sexta-feira (20/2): a instabilidade deve se concentrar em pontos da metade Norte, também com previsão de chuva fraca a moderada, pontualmente forte.

Sábado (21/2) e domingo (22/2): a atuação de um cavado (área alongada de baixa pressão) a Oeste do RS pode provocar chuva na metade Oeste do Rio Grande do Sul. Nesses dois dias, a precipitação deve ocorrer de forma isolada nessa região, enquanto nas demais localidades o tempo permanecerá estável, sem previsão de chuva significativa.

Segunda (23/2) e Terça-feira (24/2): o sistema deve se aproximar e intensificar a instabilidade, com previsão de chuva em grande parte do território gaúcho.

Quarta-feira (25/2): os efeitos de circulação associados ao transporte de umidade podem provocar chuva no litoral gaúcho e em regiões adjacentes, onde há previsão de precipitação fraca a moderada. Nas demais regiões, o tempo deve permanecer estável, sem previsão de chuva significativa. Na metade Norte do RS, deve ocorrer uma leve oscilação nas temperaturas e posterior retomada gradual dos valores de calor. 

Assim, os acumulados de precipitação devem variar entre 5 e 100 milímetros (mm) ao longo da semana, com maiores acumulados sendo previstos para a região da Fronteira Oeste, Missões, Alto Uruguai e Norte. Nas demais regiões, os acumulados previstos são um pouco menores e devem ficar entre 5 e 50 mm.

O boletim agrometeorológico atualiza semanalmente a situação de diversas culturas e criações de animais no RS. Acompanhe todas as publicações agrometeorológicas da Secretaria em www.agricultura.rs.gov.br/agrometeorologia. (SEAPI)


Jogo Rápido

No programa Pampa Debates do dia 19 de fevereiro de 2026, o público acompanhou uma discussão qualificada sobre temas de interesse regional e econômico, com a participação de Guilherme Portella, presidente do Sindilat/RS, ao lado de Anderson Mantei, prefeito de Santa Rosa, do deputado estadual Ernani Polo, de Cicão Chies, sócio-fundador da DC Set Group, e do empresário Gilmar Veloz, reunindo diferentes visões do setor público e privado em um debate direto e esclarecedor. Assista aqui. (Pampa Debates via youtube)