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10/02/2025

Porto Alegre, 10 de fevereiro de 2026                                                    Ano 20 - N° 4.571


Estudo traça sistemas típicos da pequena produção de leite no Rio Grande do Sul em 2025

Levantamento realizado em workshop com especialistas detalha a realidade de dois sistemas típicos da agricultura familiar e aponta tendências de concentração no setor.

No Rio Grande do Sul, a produção anual de leite tem se mantido estável, na casa dos 4 bilhões de litros nos anos recentes. No entanto, a estrutura por trás desses números está mudando: há uma redução expressiva do número de produtores, acompanhada pelo aumento da produtividade por vaca e do número médio de animais por estabelecimento.

Para compreender essas transformações, foi realizado em dezembro de 2025 um workshop em Cruz Alta (RS) reunindo especialistas¹, pesquisadores e técnicos. O encontro levantou indicadores de eficiência de cinco sistemas produtivos. Os dois modelos de menor escala são o foco desta análise: fazem uso de mão de obra familiar e a produção é a base de pasto, e que juntos representam 80% dos estabelecimentos e um quarto da produção total do estado.

Abaixo, detalhamos o raio-X desses dois sistemas, identificados pelos códigos RS15-150 (menor escala) e RS30-500 (escala intermediária).

Sistema de produção RS 15-150:

Esse sistema é representativo para 62% dos estabelecimentos do estado, concentrando 33% do rebanho de vacas e são responsáveis por 11% da produção total de leite;

A produção total diária é de 150 litros, equivalente a 12,5 litros de leite por vaca em lactação, de um total de 12 animais. Considerando o rebanho total de 15 vacas, a produção média por animal é de 10 litros/dia. O valor de mercado para uma vaca no início da lactação é estimado em R$ 6.000;

Ocupa 16 ha de terra, sendo 90% em pastagens, dos quais 9 ha são anuais e 4 ha em perenes. As perenes têm um custo de manutenção de R$ 400 por ha/ano, possibilitando uma taxa de lotação de 2,0 UA por ha. Destinam-se ainda 2 ha de milho para produção de silagem. 

A idade da novilha ao primeiro parto é de 30 meses;

Uso exclusivo da mão de obra familiar, na base de 0,8 pessoas, que resulta em uma produtividade de 200 litros de leite por dia trabalhado, ao custo equivalente a um salário bruto de R$ 3.982 por mês, para um salário líquido de R$ 3.000 por mês por unidade de trabalho.

Tabela 1 ATIVIDADE LEITEIRA – Características técnicas, estrutura da produção e produtividade de dois sistemas típicos da produção de leite à pasto em base familiar do RS, 2025.

(*) Identificado por: UF; total de vacas; L/ faz./dia.
(**) Valores monetários em R$/Dez 2025.
Fonte: Dados de levantamento em Workshop realizado em dezembro de 2025, em Cruz Alta, RS. 

Sistema de produção RS 30-500:

Representativo de sistema típico de um quarto dos produtores gaúchos que, no agregado respondem por 15% da produção estadual de leite;

A produção diária é de 500 litros, em média 19,2 litros com 26 vacas em lactação. Considerando o total de 30 vacas, a produção média é de 16,7 litros por dia.  O valor de mercado estimado para uma vaca no início da lactação é de R$ 8.000;

Ocupa 33 ha de terra, com dois terços destinados a pastagens, sendo a metade em pastagens anuais (16 ha), a um custo médio de manutenção de R$ 3.000 por ha/ano. As perenes ocupam 6 ha, com um custo de manutenção de R$ 1.200 por ha/ano, possibilitando taxa de lotação de 3,0 UA por ha. A produção de silagem de milho ocupa 11 ha.

A idade da novilha no primeiro parto é de 28 meses;

Uso de 2 unidades de mão de obra familiar, com produtividade de 276 litros por dia trabalhado. O custo dessa mão de obra é equivalente a um salário bruto de R$ 3.982 por mês, para um salário líquido de R$ 3.000 por mês por unidade de trabalho.

Receitas e custos do leite

Para entender a saúde financeira desses sistemas, o estudo analisou os custos de produção considerando apenas a produção de leite. A lógica usada pelos especialistas foi transformar o preço líquido recebido pelo leite na "Receita Total" (100%) e avaliar quanto cada despesa consome dessa renda.

A análise divide as despesas em dois grupos:

Custo Operacional Efetivo (COE): é o dinheiro que realmente sai do bolso do produtor para pagar insumos e serviços a preços de mercado.

Custo Operacional Total (COT): é a soma do item anterior com custos que não envolvem desembolso imediato, mas são reais: a depreciação (o desgaste das máquinas e instalações) e o valor da mão de obra familiar.

Tabela 2 - Estimativas da renda total e despesas anuais em relação à renda total de dois sistemas típicos da produção de leite à pasto em base familiar do RS, 2025.

(*) Identificado por: UF; total de vacas; L/ faz./dia.
(**) Valores monetários em R$/Dez 2025.
Fonte: Dados de levantamento em Workshop realizado em dezembro de 2025, em Cruz Alta, RS.

Gastos diretos são parecidos quando olhamos apenas para o dinheiro que sai do caixa (Custo Operacional Efetivo), os dois sistemas são muito parecidos. No sistema menor (RS15-150), esses gastos consomem 58% da receita, enquanto no maior (RS30-500), consomem 54%.

O peso da alimentação das vacas é idêntico proporcionalmente: em ambos os casos, a ração (concentrado) "come" 25%  da renda do leite, e o volumoso (pasto/silagem) representa 7%.

O peso "invisível" da mão de obra e depreciação 

As grandes diferenças aparecem quando calculamos o Custo Total. O sistema menor sofre mais com o peso da mão de obra familiar e da depreciação, pois tem menos leite para pagar essas contas.

Somando depreciação e mão de obra, essa fatura representa:

41% da receita no sistema pequeno (sendo 12% de depreciação e 29% de mão de obra).
31% da receita no sistema maior (sendo 10% de depreciação e 21% de mão de obra).
Em resumo, a menor produtividade por vaca e o baixo volume diário tiram a competitividade do pequeno produtor, tornando sua estrutura proporcionalmente mais cara. O resultado final mostra a fragilidade do sistema menor. O RS 15-150 consegue pagar seu Custo Total (que atinge 99% da receita), mas sobra uma margem líquida de apenas 1%, uma folga financeira perigosamente limitada. Já no sistema RS30-500, a eficiência dilui os custos, garantindo uma margem líquida de 15%.

Receitas e custos da atividade leiteira

O estudo também colocou na ponta do lápis os custos para criar as novilhas (as futuras vacas leiteiras). Embora calculados separadamente, esses valores compõem o resultado geral da propriedade. A boa notícia é que, em ambos os modelos, a criação de animais trouxe retorno positivo.

Custo de reposição

No sistema menor (RS15-150): A novilha tem o primeiro parto mais tarde, aos 32 meses. O custo total para criá-la é de R$ 4.684. Isso representa 78% do seu valor de mercado (estimado em R$ 6.000).

No sistema maior (RS30-500): A novilha é mais precoce, parindo aos 30 meses. O custo de criação é maior, R$ 5.788, mas como o animal é mais valorizado (R$ 8.000), esse custo compromete uma fatia menor do valor final: 72%.

Tabela 3 - ATIVIDADE LEITEIRA – Estimativa da renda líquida anual de dois sistemas típicos da produção de leite à pasto em base familiar do RS, 2025.

(*) Identificado por: UF; total de vacas; L/ faz./dia.
(**) Valores monetários em R$/Dez 2025.
Fonte: Dados de levantamento em Workshop realizado em dezembro de 2025, em Cruz Alta, RS.

Para concluir, o levantamento consolidou todas as rendas (leite + venda de animais) e descontou todos os custos anuais:

Sistema RS15-150: no limite do reinvestimento.

Este modelo gera uma receita anual total de R$ 135 mil. Depois de pagar todas as contas do dia a dia e descontar a depreciação, o que sobra para remunerar a mão de obra da família é R$ 38 mil por ano.

Isso equivale a um salário de R$ 3.200 mensais por pessoa (já considerando encargos como 13º, férias e FGTS).
A "sobra líquida" real, ou seja, o dinheiro livre para a propriedade reinvestir e crescer, é de apenas R$ 4 mil por ano.  
Sistema RS30-500: viabilidade a longo prazo.

A escala maior movimenta uma receita bruta de R$ 475 mil por ano. Após deduzir custos operacionais e depreciação (R$ 292 mil), a remuneração para as duas pessoas da família que trabalham no local é de R$ 95 mil por ano (cerca de R$ 8 mil mensais).

A renda líquida anual da atividade fecha em R$ 86 mil (18% da receita bruta).
Esse resultado permite uma remuneração de 2,2% ao ano sobre o capital investido, classificando esses empreendimentos como viáveis financeiramente no longo prazo.

Escala e produtividade

Os indicadores mostram que sistemas com menor produtividade por vaca e com menor volume de produção têm custos relativos mais altos e percebem preços líquidos inferiores à média estadual, reduzindo sua competitividade. Nesse contexto, estudos da Emater-RS de 2023 reforçam essa tendência e indicam que a categoria dos estabelecimentos acima de 500 litros por dia foi a única que apresentou crescimento em número de produtores, cerca de 1% ao ano. Portanto, o Rio Grande do Sul está em uma dinâmica de concentração da produção: menos propriedades, porém com maior escala, produtividade animal e eficiência por área.

Desafios para permanecer na atividade

A redução do número de produtores, principalmente aqueles com menores escalas, também é observada em outras regiões do Brasil. A permanência desses produtores na atividade é um desafio para a cadeia de lácteos, seus atores sociais e para os formuladores de políticas públicas e para o setor privado. A política brasileira de pagamento pelo leite, com elevada bonificação por volume, tem papel fundamental no direcionamento da atividade.

O aumento do volume de produção e produtividade requer apropriação de novas tecnologias e melhorias estruturais, que dependem de investimentos que nem sempre estão ao alcance dos produtores com menores escalas. Entretanto, para um produtor, com o sistema RS15-150, passar para o outro patamar, precisaria, por exemplo, ampliar o rebanho em pelo menos 15 vacas para justificar o uso de uma unidade de mão de obra adicional. Esse salto esbarra não apenas na limitação de capital, mas também na dificuldade de encontrar mão de obra qualificada e disposta a trabalhar no meio rural. Portanto, a mudança de escala implica na ampliação adequada de todos os recursos da atividade: terra, capital, trabalho, rebanho e gestão.

¹Participantes: Alberto Petiz – CCGL; Alessandra Bridi – Pesquisadora RTC/CCGL; Darlan Palharini – SINDILAT; Éder Motta – CCGL; Jarlan Nascimento – CCGL; Michel Kraemer – CCGL; Natália Bastos – CCGL; Nícolas Petry – CCGL; Oldemar Weiller – EMATER/RS; Renan Faccio – CCGL; e Silvana Trindade – CCGL.


Indice FAO | Excesso de gordura derruba preços globais dos lácteos

Preços globais dos lácteos entram em fase de ajuste: gordura perde valor e proteínas sustentam o comércio em regiões deficitárias.

Preços globais dos lácteos entraram em trajetória de queda em janeiro, refletindo um cenário de disponibilidade confortável para exportação nas principais regiões produtoras.
O movimento ocorreu em paralelo à quinta retração consecutiva do Índice de Preços de Alimentos da FAO, que atingiu média de 123,9 pontos — 0,4% abaixo do mês anterior e 0,6% inferior ao registrado um ano antes.

Entre os componentes do índice, os lácteos apresentaram o ajuste mais intenso. O indicador específico do setor caiu 5,0% frente a dezembro, em um ambiente no qual a oferta superou a demanda sazonal. Para operadores do mercado, o dado reforça uma mudança de curto prazo: o equilíbrio deixou de ser determinado por escassez e passou a ser moldado pela abundância.

Queijo e manteiga lideraram as perdas. A maior disponibilidade exportável reduziu o poder de sustentação dos preços, especialmente em produtos com alto teor de gordura. O comportamento sugere que estoques adequados — ou até superiores ao necessário — estão limitando reações de alta mesmo em períodos tradicionalmente mais firmes para o consumo.

Na direção oposta, o leite em pó desnatado registrou valorização. A FAO atribui o avanço à retomada das importações por países do Oriente Próximo, Norte da África e partes da Ásia. O fluxo indica que ingredientes proteicos seguem estratégicos para mercados com déficit estrutural de produção, mantendo um vetor de demanda relativamente resiliente.

Esse descolamento entre gordura e proteína ajuda a explicar a atual configuração do comércio internacional. Enquanto derivados mais energéticos enfrentam pressão, ingredientes voltados à formulação industrial continuam encontrando compradores. Para empresas com portfólio diversificado, a leitura é clara: mix de produtos pode ser determinante para atravessar ciclos de preços mais baixos.

O ajuste nos lácteos também ocorreu dentro de um quadro mais amplo de commodities. Carnes e açúcar recuaram no mesmo período, ao passo que os óleos vegetais subiram impulsionados por restrições de oferta e pela demanda ligada a biocombustíveis. O contraste evidencia que, embora os alimentos compartilhem fatores macroeconômicos, cada cadeia responde a fundamentos próprios.

No campo das projeções, a FAO estima que a produção global de cereais alcance um recorde de 3,023 bilhões de toneladas em 2025. O resultado seria sustentado por maiores colheitas de trigo na Argentina, Canadá e União Europeia, além da expansão do milho na China e nos Estados Unidos. Uma base robusta de grãos tende a favorecer a estabilidade dos preços alimentares, reduzindo riscos inflacionários ao longo da cadeia.

Para o setor leiteiro, o momento é descrito como uma fase de conforto pelo lado da oferta, e não de tensão pela demanda. Países importadores se beneficiam de condições mais previsíveis, potencialmente ampliando sua capacidade de compra.

Já para exportadores — sobretudo aqueles com custos de produção elevados — o cenário pode significar compressão das margens e maior pressão sobre os preços pagos ao produtor. Em termos estratégicos, o sinal não é apenas conjuntural: indica um mercado mais sensível ao volume disponível do que à urgência por abastecimento.

A leitura central para tomadores de decisão é objetiva: quando a oferta dita o ritmo, eficiência operacional, gestão de custos e posicionamento comercial deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos básicos para competir. (Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy News Today)

Câmara deve votar em maio PEC que acaba com a escala 6x1, diz Motta

Presidente da Câmara diz que essa é a 'expectativa' da Câmara para a proposta, que deve ser tratada como uma das prioridades dos deputados para este ano.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou nesta terça-feira (10) que a expectativa é votar, em maio, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala 6x1.

"O mundo evoluiu, as tecnologias se desenvolveram e o Brasil não pode ficar pra trás. Vamos capitanear a discussão ouvindo a sociedade e o setor produtivo, com a expectativa de votação em maio", disse o presidente da Casa, em uma rede social.

Na segunda-feira (9), Motta anunciou o envio do texto para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Segundo o parlamentar, após a análise do texto pelo colegiado, a proposta será encaminhada para debate em uma comissão especial da Câmara.

Caso seja aprovada pela CCJ e pela comissão especial, a PEC segue para votação no plenário. O que deve ocorrer no mês de maio, conforme a previsão de Motta. Leia a matéria completa clicando aqui (G1)


Jogo Rápido

Agronegócio responde por mais de um quarto dos empregos no Brasil
O agronegócio brasileiro empregou 28,58 milhões de pessoas no terceiro trimestre de 2025, um crescimento de 2,0% em relação ao mesmo período de 2024 — o equivalente a quase 569 mil novos postos de trabalho. Os dados são de pesquisas do Cepea, da Esalq/USP, em parceria com a CNA, e representam o maior contingente já registrado para um trimestre desde o início da série histórica, em 2012. No mercado de trabalho brasileiro como um todo, o avanço foi de 1,3% na mesma comparação, com cerca de 1,37 milhão de trabalhadores a mais. Com isso, a participação do agronegócio no total de ocupações do país chegou a 26,35% no terceiro trimestre de 2025, acima dos 26,15% observados um ano antes. No segmento de insumos, o número de pessoas ocupadas cresceu 1,5% na comparação anual. Com exceção das indústrias de rações, todas as atividades do segmento registraram expansão, com destaque para as indústrias de fertilizantes, defensivos, medicamentos veterinários e máquinas agrícolas. Esse avanço reflete o fortalecimento econômico das atividades agropecuárias e a crescente demanda por insumos ao longo dos últimos anos. Nas atividades dentro da porteira, o contingente de trabalhadores aumentou 0,7%, impulsionado tanto pela agricultura quanto pela pecuária. Já na agroindústria, o crescimento foi de 1%. Entre as agroindústrias de base agrícola, contribuíram para esse resultado os segmentos de vestuário e acessórios, bebidas, móveis de madeira e etanol. No caso das agroindústrias de base pecuária, o desempenho positivo veio principalmente dos setores de abate de animais e laticínios. O maior avanço, porém, foi observado nos agrosserviços, com crescimento de 4,5% em relação ao terceiro trimestre de 2024. Esse movimento reflete tanto o cenário econômico nacional quanto o aumento da relevância dos serviços ligados ao agronegócio. A retomada das atividades agroindustriais, aliada às expectativas de safras recordes e à manutenção de elevados níveis de abate, ampliou a demanda por mão de obra nos serviços que sustentam essas cadeias, contribuindo para aquecer o mercado de trabalho. As informações são do Cepea, adaptadas pela equipe MilkPoint.