Porto Alegre, 05 de fevereiro de 2026 Ano 20 - N° 4.568
Acordo Mercosul–UE reacende debate sobre competitividade do leite brasileiro e pressiona cadeia por eficiência e dados
Após 26 anos de negociações, tratado abre cotas para lácteos europeus, é judicializado e expõe gargalos históricos do setor no Brasil; especialistas apontam gestão, informação e valor agregado como chaves para enfrentar o novo cenário
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE), assinado após mais de duas décadas de negociações e já judicializado, voltou a colocar o setor lácteo brasileiro em estado de alerta. Embora a redução de tarifas dentro de cotas para produtos como queijos e leite em pó europeus gere apreensão entre produtores, especialistas ouvidos avaliam que os maiores desafios não estão, necessariamente, na concorrência externa, mas em problemas estruturais da própria cadeia do leite no Brasil.
Do ponto de vista da prestação de serviço ao produtor rural e ao mercado, o consenso é que o acordo escancara dificuldades antigas: custos elevados, margens apertadas, volatilidade de preços, falta de dados confiáveis e baixa eficiência produtiva e industrial.
Gestão ineficiente pesa mais que tarifa, diz Embrapa.
Para o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Dr. Paulo Martins, a narrativa de que o produtor brasileiro será automaticamente prejudicado pela entrada de lácteos europeus precisa ser relativizada. Segundo ele, o principal entrave à competitividade do leite nacional está na gestão deficiente, tanto na produção primária quanto nos laticínios.
“O principal problema brasileiro é a baixa qualidade de gestão no setor primário e nos laticínios. Isso faz com que os nossos produtos sejam mais caros”, afirma. Para o pesquisador, reconhecer essa realidade é condição básica para avançar em eficiência e redução de custos.
Dr. Paulo Martins destaca ainda que é fundamental aprofundar estudos sobre os subsídios recebidos pelos produtores europeus, especialmente transferências diretas e possíveis incentivos a insumos. Caso esses subsídios sejam confirmados, caberia ao Brasil discutir medidas compensatórias. Ainda assim, ele avalia que há tempo suficiente para ajustes internos antes que o acordo produza efeitos mais concretos no mercado.“O que não dá é para não fazer o acordo. Ele será bom para o Brasil no seu conjunto”, resume.
Outro ponto sensível para o produtor é o receio de que a previsibilidade de importações europeias seja usada como argumento para pressionar o preço do leite pago ao campo. Para o pesquisador da Embrapa, essa leitura simplifica excessivamente a dinâmica do mercado.
“A indústria não é a vilã do setor”, afirma Martins. Segundo ele, quem mais captura valor na cadeia são os supermercados e as indústrias que utilizam leite como matéria-prima para outros alimentos, como biscoitos, doces e chocolates. Esses elos têm maior poder de barganha e influenciam os preços pagos aos laticínios, que acabam repassando essa pressão ao produtor.
Além disso, o grande número de laticínios no país faz com que o preço do leite seja resultado direto da oferta e demanda. Quando há escassez, como em 2022, com retração de cerca de 10% na produção, os preços sobem. Em momentos de excesso de oferta, como no cenário atual, influenciado pelo crescimento da produção e pelas importações, os preços tendem a cair.
Na avaliação de Paulo Martins, a elevada volatilidade de preços não é fruto apenas de disputas entre produtores e indústria, mas da ausência de dados confiáveis ao longo da cadeia. A falta de informações sobre produção primária e industrial cria um ambiente de incerteza, no qual ninguém consegue prever, com segurança, os preços praticados em horizontes de médio prazo.
“Isso mostra imaturidade e desorganização da indústria”, afirma. Para ele, a coleta e divulgação de dados consistentes são essenciais para reduzir a instabilidade e permitir decisões mais racionais por parte de produtores, laticínios e investidores.
Europa não muda o jogo da oferta, avalia indústria.
Do lado da indústria, o CEO da Cia do Leite, que atua como assistência técnica e gerencial de produtor de leite, Ronaldo Carvalho, adota um tom ainda mais cauteloso ao avaliar riscos e ganhos do acordo para o setor. Segundo ele, o tratado não altera de forma relevante a dinâmica de oferta no curto e médio prazo.
“Eu não vejo nem risco e nem ganho”, afirma. Carvalho destaca que os principais fornecedores externos de leite em pó para o Brasil já são Argentina e Uruguai, países com custos de produção mais competitivos, moeda mais fraca e logística mais favorável do que a europeia. Nesse contexto, a entrada de produtos da UE não mudaria de forma significativa o volume ofertado no mercado brasileiro.
Para ele, mesmo com subsídios, o custo da terra na Europa, a limitação de área produtiva e a força da moeda tornam o leite europeu menos competitivo frente aos vizinhos do Mercosul.
Se por um lado o acordo não deve inundar o mercado brasileiro com lácteos europeus, por outro pode abrir oportunidades pontuais para produtos brasileiros de maior valor agregado. Carvalho avalia que a exportação de commodities lácteas para a Europa é pouco viável, mas vê espaço para nichos específicos.
“Alguns produtos de valor agregado nosso podem, sim, entrar no mercado europeu”, afirma, com destaque para produtos proteicos, que vêm ganhando força no mercado interno e poderiam avançar também no exterior.
Ainda assim, ele pondera que a cadeia produtiva do leite no Brasil é conservadora e tende a reagir lentamente. Investimentos e mudanças estratégicas só devem ocorrer após a consolidação efetiva do acordo e o mapeamento claro das oportunidades.
Barreiras sanitárias e ESG entram no radar. Apesar do potencial, os entraves técnicos e sanitários são considerados reais. Segundo Carvalho, é natural que a UE busque criar barreiras sanitárias e ambientais como forma de conter a entrada de produtos brasileiros, especialmente se a balança comercial passar a favorecer o Brasil.
Nesse cenário, estados do Sul aparecem em vantagem. De acordo com o executivo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão há mais de uma década à frente de outras regiões na adequação a exigências sanitárias, certificações e práticas ligadas à sustentabilidade.
Para acessar o mercado europeu, ele avalia que será indispensável investir em ESG, rastreabilidade, certificações e, sobretudo, em uma narrativa consistente. “O europeu agrega valor contando uma boa história”, afirma, citando o apelo ambiental, familiar e emocional dos produtos lácteos vendidos na Europa.
No fim das contas, tanto a pesquisa quanto a indústria concordam em um ponto central: o acordo Mercosul–UE não cria, por si só, uma crise para o leite brasileiro, mas expõe fragilidades históricas da cadeia. Competitividade, acesso a crédito, eficiência produtiva, organização de dados, sanidade e estratégia de mercado seguem sendo os verdadeiros desafios para atender tanto o mercado interno quanto possíveis oportunidades externas.
Para o produtor rural, a mensagem é clara: mais do que temer o produto europeu, será necessário olhar para dentro da porteira e da indústria, profissionalizar a gestão e se preparar para um mercado cada vez mais exigente e volátil. (Notícias Agrícolas)
GDT 397: consolidação de preços sinaliza transição para um novo ciclo no mercado lácteo internacional
O 397º leilão da plataforma Global Dairy Trade (GDT), realizado no dia 03 de fevereiro, apresentou um movimento de novas e expressivas altas, reforçando o processo de recuperação dos preços internacionais de lácteos. Em meio à valorização generalizada entre os produtos negociados, o preço médio dos lácteos comercializados (price index) registrou forte avanço de 6,7%, atingindo USD 3.830/tonelada.
Gráfico 1. Preço médio leilão GDT
O leite em pó integral (LPI), principal produto negociado na plataforma, voltou a apresentar alta significativa, com valorização de 5,3%, alcançando o preço médio de USD 3.614/tonelada. O movimento reforça a retomada dos preços dos lácteos no mercado internacional, ainda que os valores permaneçam abaixo dos patamares observados no início de 2025.
O grande destaque do leilão foi o leite em pó desnatado (LPD), que registrou a maior alta percentual do evento, com valorização de 10,6%, sendo cotado a USD 2.874/tonelada. Com esse resultado, o produto retorna a níveis de preços observados em abril de 2025, o patamar mais elevado registrado na série recente.
Gráfico 2. Preço médio LPI
Outro destaque relevante foi a muçarela, que, assim como o LPD, apresentou valorização de 10,6%, atingindo o preço médio de USD 3.694/tonelada. Apesar da forte recuperação neste leilão, o produto ainda opera em níveis inferiores aos observados no início do ano passado, em função da sequência prolongada de quedas registrada ao longo de 2025.
A manteiga também manteve o movimento de recuperação, com alta de 8,8%, dando continuidade ao processo de recomposição de preços após um período prolongado de desvalorizações no mercado internacional.
Nenhum dos produtos negociados apresentou variação negativa no evento, e todos os derivados ofertados foram integralmente comercializados.
A Tabela 1 apresenta os preços médios dos derivados ao fim do evento, assim como suas respectivas variações em relação ao leilão anterior.
Tabela 1. Preço e variação do índice dos produtos negociados no leilão GDT em 03/02/2026.
Volume negociado recua novamente
O volume total negociado no leilão somou cerca de 24,0 mil toneladas, representando queda de 13,6% em relação ao evento anterior. Ainda assim, frente ao mesmo período do ano passado, o volume permaneceu praticamente inalterado, indicando que a redução observada tem caráter sazonal. A participação de 175 compradores — número superior ao registrado no leilão anterior — reforça a leitura de demanda consistente, o que, combinado ao menor volume ofertado, contribuiu para a forte valorização dos preços no evento.
Gráfico 3. Volumes negociados nos eventos do leilão GDT.
Impacto nos contratos futuros
Desde o último leilão do GDT, os contratos futuros de leite em pó integral negociados na NZX continuam apresentando valorização. O movimento reforça um cenário de maior equilíbrio entre oferta e demanda, sustentado pela expectativa de crescimento mais contido da produção em 2026 e por uma demanda já ajustada ao volume disponível no mercado global. Com isso, os preços futuros vêm registrando altas sucessivas entre as sessões.
Gráfico 4. Contratos futuros de leite em pó integral (NZX Futures)
E como os resultados do leilão GDT afetam o mercado brasileiro?
A expectativa de menor crescimento da produção mundial de leite em 2026, associada a uma demanda global mais firme, tem favorecido a recuperação dos preços internacionais de lácteos. Esse movimento já começa a se refletir regionalmente no Mercosul, onde, segundo as pesquisas semanais do MilkPoint Mercado, os derivados vêm apresentando recuperação de preços.
Ainda assim, informantes do mercado regional relatam dificuldades pontuais de vendas ao Brasil, em função dos preços domésticos ainda operarem em patamares relativamente baixos, apesar do movimento recente de recuperação. Nesse contexto, a combinação de preços internacionais mais elevados e ampla oferta interna pode reduzir a atratividade das importações de lácteos, contribuindo para o processo de recomposição dos preços no mercado nacional.
Por outro lado, o câmbio segue como fator de atenção. A valorização do real frente ao dólar pode aumentar a competitividade dos produtos importados, atenuando parte dos efeitos positivos da alta internacional sobre o mercado doméstico.
Em síntese, o resultado do 397º leilão do GDT reforça o cenário de recuperação dos preços internacionais de lácteos, com impactos crescentes no Mercosul e potenciais efeitos positivos para o equilíbrio do mercado brasileiro ao longo de 2026. (Milkpoint)
China vive ponto de virada no setor de lácteos
A expansão acelerada da oferta de leite mudou o equilíbrio do mercado chinês. Menos importações, preços pressionados e os primeiros passos do país como exportador marcam esse novo cenário.
O setor de lácteos da China atravessa um período de profunda transformação. Ao longo da última década, o país intensificou políticas voltadas à autossuficiência em produtos lácteos, movimento que ganhou ainda mais força durante a pandemia, quando a segurança alimentar passou a ocupar posição central na agenda nacional. Como resultado, a produção doméstica de leite cresceu de forma acelerada.
No centro dessa estratégia está a expansão das grandes fazendas leiteiras industriais. Essas unidades, frequentemente chamadas de “mega fazendas”, operam com genética avançada, vacas de alta produtividade importadas e sistemas automatizados de ordenha. Esse modelo permitiu que a produção nacional de leite alcançasse quase 42 milhões de toneladas em 2023, superando as metas oficiais antes do previsto. Em paralelo, as pequenas fazendas familiares perderam espaço, à medida que as grandes operações passaram a dominar o setor.
Apesar do avanço da oferta, a demanda não acompanhou o mesmo ritmo. Nos últimos anos, o consumo per capita de lácteos na China recuou. O enfraquecimento da economia reduziu os gastos das famílias, enquanto mudanças nos hábitos alimentares limitaram o crescimento do consumo de leite líquido. Somam-se a esse cenário fatores demográficos, como taxas de natalidade historicamente baixas, que impactaram a demanda por produtos como fórmulas infantis.
O descompasso entre oferta e demanda resultou em um excedente estrutural de leite. Em diversas regiões, os preços do leite cru passaram a ficar abaixo dos custos de produção. Diante desse contexto, produtores menores e menos eficientes vêm se consolidando ou deixando a atividade.
O excesso de oferta também reduziu a necessidade de importações. Em 2023, as compras totais de lácteos pela China caíram cerca de 12%, com destaque para o leite em pó integral, cujas importações recuaram aproximadamente 38%. Esse movimento afetou diretamente exportadores tradicionais, como Nova Zelândia, União Europeia e Austrália, que registraram queda nos volumes destinados ao mercado chinês.
Ao mesmo tempo, a China começa a explorar seu potencial como exportadora de lácteos. Embora os volumes ainda sejam limitados, as exportações vêm crescendo de forma gradual. Em 2024, o país deve embarcar cerca de 70 mil toneladas de produtos lácteos, principalmente leite em pó, com destino a mercados do Sudeste Asiático, África, Oriente Médio e Ásia Central.
De forma geral, a indústria chinesa de lácteos chega a um ponto de inflexão. O forte crescimento da produção elevou a autossuficiência, mas a fraqueza da demanda interna alterou os fluxos comerciais. Caso essa tendência se mantenha, a China tende a assumir um papel mais ativo nos mercados regionais de exportação de lácteos nos próximos anos.
As informações são do Dairy Dimension, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.
Jogo Rápido
MILHO/CEPEA: Em queda, Indicador volta à casa dos R$ 65/sc
Cepea, 02/02/2026 – No encerramento de janeiro, o Indicador do milho ESALQ/BM&FBovespa seguiu em queda e voltou a operar na casa dos R$ 65 por saca de 60 kg, patamar que não era verificado desde o final de outubro de 2025. Segundo pesquisadores do Cepea, a liquidez esteve baixa no período, tendo em vista que compradores priorizaram o consumo de estoques negociados antecipadamente e realizaram aquisições apenas de forma pontual. Do lado da oferta, parte dos produtores com receio de novas desvalorizações e com necessidade de liberação de armazéns esteve mais flexível nos valores. Pesquisadores do Cepea ressaltam que, tipicamente, a colheita da soja e a maior demanda por fretes para a oleaginosa chegam a sustentar os valores de milho durante as primeiras semanas do ano. No entanto, em 2026, um dos fatores que tem impedido reações nos preços é o fato de os estoques de milho estarem muito elevados – são estimados em 12 milhões de toneladas neste início de temporada, contra 1,8 milhão de toneladas em 2025, e acima da média das últimas cinco safras, de 9,2 milhões de toneladas. Fonte: Cepea (www.cepea.esalq.usp.br)