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24/02/2026

Porto Alegre, 24 de fevereiro de 2026                                                    Ano 20 - N° 4.576


Na Argentina, os preços do leite praticamente não sobem

O  preço que os produtores de leite recebem pelo leite  aumentou apenas  0,3% em janeiro, bem abaixo da inflação, o que agrava a  deterioração econômica,  especialmente para  as pequenas fazendas leiteiras , de acordo com analistas do setor.

Apesar de uma correção técnica dos dados pela Direção Nacional de Laticínios, o preço médio pago por litro permanece praticamente estagnado, enquanto a inflação e o custo de insumos como milho e soja continuam a subir.

Deterioração do poder de compra e disparidade entre as fazendas leiteiras

A evolução do preço real do leite mostra que com um litro hoje é possível comprar  muito menos insumos agrícolas  do que há um ano, o que pressiona as margens de produção.

Além disso, observa-se  uma diferença de preço entre pequenas e grandes fazendas leiteiras : as pequenas fazendas recebem pouco mais de 400 pesos por litro, enquanto as maiores podem cobrar até 580 pesos, refletindo uma  crescente concentração no setor primário .

A situação se agrava porque a estagnação do preço médio mascara as diferenças internas e pressiona a rentabilidade das fazendas leiteiras sem forte apoio financeiro.

Fonte:  Bichos del Campo via portalechero


Europa pode reduzir excedente exportável de lácteos nos próximos anos

Fim das cotas impulsionou a produção; agora, o cenário aponta estabilização e leve retração. Regulamentações ambientais e envelhecimento dos produtores estão entre os principais fatores de pressão. A redução da oferta europeia pode abrir espaço para outros exportadores no mercado global.

O cenário da oferta de leite na União Europeia passa por mudanças, impulsionado, entre outros fatores, pela estabilização da produção. A tendência e seus possíveis desdobramentos foram discutidos em um episódio recente do podcast do RaboResearch, com a participação de Michael Harvey, analista sênior de Lácteos e Bens de Consumo do Rabobank, em conversa com Tom Booijink, especialista sênior em lácteos para Europa e África.
O fim do sistema de cotas, que por anos regulou a produção de leite no bloco, levou a um crescimento acelerado da oferta. “Desde o fim do sistema de cotas, todos os freios foram removidos e a produção aumentou rapidamente, especialmente no noroeste da Europa”, afirma Booijink. Segundo ele, 11 anos após o encerramento das cotas, esse crescimento começa a se estabilizar. Para os próximos cinco a dez anos, a expectativa é de um leve declínio na oferta de leite no noroeste europeu.

Esse movimento pode gerar desafios para a indústria. Após o fim das cotas em 2015, muitos processadores investiram fortemente na ampliação da capacidade, prevendo aumento contínuo da oferta — o que de fato ocorreu entre 2015 e 2020. Com a estabilização atual e a perspectiva de queda gradual, Booijink avalia que parte dessa capacidade poderá ficar ociosa.

Entre os fatores que sustentam a expectativa de declínio estrutural do volume de leite está o ambiente regulatório da União Europeia. De acordo com Booijink, normas ambientais relacionadas a nitrogênio, fosfato e emissões de carbono tendem a limitar a expansão da produção. Regras mais rígidas sobre descarte e produção de esterco, além da necessidade de licenças, também elevam os custos e restringem o crescimento.

Outro ponto relevante é o perfil demográfico do setor. “Uma base de produtores envelhecida é outro fator importante”, destaca Booijink. Ele observa que o despovoamento em algumas regiões europeias agrava o cenário. “Na Europa Oriental, há falta de mão de obra e muita migração para as partes ocidentais da União Europeia. Por exemplo, a Bulgária perdeu 20% de sua população desde 2000, e isso afeta a disponibilidade de mão de obra e a viabilidade do setor leiteiro nessas regiões”, afirma.

Segundo Booijink, a maior contração da oferta deve ocorrer nos países com regulamentações mais rígidas — justamente aqueles que mais cresceram após o fim das cotas. Holanda, Bélgica, Alemanha e Dinamarca respondem juntas por cerca de 35% a 40% da produção total de leite da Europa. No caso da França, a expectativa também é de queda, atribuída principalmente ao envelhecimento dos produtores.

A redução do volume de leite tende a impactar diretamente os processadores, que precisarão ajustar sua estratégia junto aos fornecedores. Booijink aponta duas medidas centrais para manter a competitividade: fortalecer o relacionamento com os produtores, oferecendo preços competitivos, e gerir os ativos com eficiência diante da menor oferta, assegurando níveis adequados de utilização das plantas industriais. “A taxa de utilização é fundamental para o custo de produção de queijo, por exemplo”, ressalta.

No mercado global, a projeção é de retração. Booijink estima que a oferta mundial de leite pode cair 5% nos próximos dez anos. “Pode não parecer muito, mas uma grande parte dos produtos lácteos europeus é exportada e, com a demanda estável e a oferta diminuindo, haverá menos excedente disponível para os mercados de exportação — portanto, com a queda de 5% na oferta de leite, isso significará que a União Europeia terá aproximadamente 40% menos equivalentes de leite disponíveis para exportação para o resto do mundo — uma lacuna da qual outras regiões podem se beneficiar”, afirma.

Para Harvey, trata-se de um cenário de longo prazo, sujeito a mudanças ao longo do tempo. “Este é um cenário de longo prazo, e muita coisa pode mudar ao longo do caminho, mas acredito que a realidade é uma contração sustentada no declínio estrutural do volume de leite na Europa. Isso criará outras oportunidades para outros exportadores, um efeito de transbordamento potencial no mercado de commodities, porque é uma lacuna significativa que precisará ser preenchida”, disse.

As informações são do Dairy Global, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.

Especial Leite por Elas, Jamile Casarotto: "é na fazenda que deposito os meus planos futuros e onde construí a minha identidade profissional"

Diferente de muitas histórias que começam na infância, a trajetória de Jamile na pecuária leiteira é recente. Ela chegou à fazenda em 2019. Até então, morava na cidade e tinha pouquíssimo contato com o meio rural. Tudo o que sabe hoje foi aprendido na prática, no enfrentamento da rotina e na busca constante por conhecimento.

Dando sequência ao Especial Leite por Elas, o MilkPoint apresenta a história de Jamile Casarotto, produtora à frente da Agropecuária São Matheus, localizada em Eugênio de Castro (RS). Ao lado da sogra, Susana Gubert Voigt, Jamile integra a gestão da atividade leiteira e constrói, diariamente, seu espaço na produção.

Diferente de muitas histórias que começam na infância, a trajetória de Jamile na pecuária leiteira é recente. Ela chegou à fazenda em 2019. Até então, morava na cidade e tinha pouquíssimo contato com o meio rural. Tudo o que sabe hoje foi aprendido na prática, no enfrentamento da rotina e na busca constante por conhecimento.

Aprender fazendo — e insistindo

Quando decidiu permanecer na fazenda e investir na atividade, Jamile também assumiu um compromisso pessoal: estudar e se atualizar, especialmente nas áreas de reprodução, genética e criação de bezerras, que na visão dela, são os principais pontos para um plantel saudável no futuro. Naquele momento, o rebanho era composto majoritariamente por vacas mais velhas, e a necessidade de renovação era evidente.

A troca de plantel tornou-se uma das principais estratégias para mudar o cenário produtivo. O processo, no entanto, esteve longe de ser simples. Houve perdas de animais, frustrações e dificuldades reprodutivas — inclusive vacas que não emprenhavam mesmo com protocolos de IATF (inseminação artificial em tempo fixo). No início, a presença de um touro de corte ajudou a evitar resultados ainda mais críticos.

A virada começou a se consolidar apenas no final de 2024, com a entrada de novilhas e bezerras mais jovens no sistema. A partir daí, os primeiros reflexos positivos começaram a aparecer. O que hoje se apresenta como estabilidade foi construído com persistência, ajustes constantes e decisões técnicas baseadas em aprendizado contínuo.

Duas mulheres à frente da produção

Enquanto Susana permanece responsável pela parte financeira das vacas e pela nutrição, Jamile assumiu as demais frentes operacionais. Ela atua diretamente no manejo reprodutivo, na aplicação e acompanhamento de protocolos, na identificação de sinais comportamentais das vacas, na administração de medicamentos e até no preparo da ração. Segundo ela, grande parte do aprendizado veio da observação atenta do rebanho.

“Aprendi a interpretar o que a vaca ‘diz’ pelas atitudes. A perceber quando ela está bem, quando não está, quando algo precisa ser ajustado”, relata. Para Jamile, o processo de aprendizado é permanente. Sempre que surge uma dúvida ou uma dificuldade, a resposta é buscar informação. O objetivo é claro: melhorar os resultados da fazenda.

Ser mulher no campo — sem abrir mão de si mesma

Ao falar sobre sua trajetória, Jamile destaca que a força feminina no campo não exige que a mulher abandone sua identidade.

Ela defende que é possível realizar um trabalho duro, técnico e exigente sem abrir mão da feminilidade. “Podemos ser fortes e delicadas ao mesmo tempo. Podemos nos maquiar, nos perfumar, pintar as unhas. Trabalho é uma coisa; autoestima é outra.”

Para ela, o autocuidado não diminui a competência — pelo contrário, fortalece a confiança e a presença na atividade.

Amor pela atividade, compromisso com o resultado

Apesar de não ter crescido na pecuária leiteira, Jamile afirma ter se encontrado na atividade. Foi na fazenda que construiu sua identidade profissional e onde deposita seus planos para o futuro.

O amor pelas vacas é evidente, mas ele caminha ao lado da responsabilidade e da busca por evolução. A mudança do perfil do rebanho, os ajustes reprodutivos e a estabilidade produtiva atual são reflexo de uma decisão clara tomada em 2019: permanecer, aprender e insistir.

O Especial Leite por Elas segue mostrando que a presença feminina na produção leiteira brasileira não é apenas simbólica — ela está na gestão, na técnica, nas decisões e nos resultados dentro da porteira. (Milkpoint)


Jogo Rápido

Calor intenso e falta de chuva impactam a produção de leite. No norte do estado, produtores já registram perdas. Assista aqui. (G1)