Porto Alegre, 12 de fevereiro de 2026 Ano 20 - N° 4.573
Carnaval e consumo fora da rotina: como a folia reorganiza a demanda por lácteos?
Datas de exceção ajudam a entender como o consumidor reage fora do padrão habitual. No Carnaval, atributos como praticidade, versatilidade e consumo coletivo ganham força. Esses movimentos ampliam a leitura sobre inovação, portfólio e estratégia. Confira!
O Carnaval é um dos períodos mais interessantes do calendário para observar como o consumo se reorganiza quando a rotina desaparece. Em poucos dias, refeições planejadas dão lugar a encontros informais, churrascos improvisados, consumo fora de casa e decisões de compra mais imediatas.
Para a indústria láctea, esse deslocamento não representa apenas um pico pontual, mas um ambiente privilegiado de leitura de comportamento. É nesse contexto que alguns produtos ganham protagonismo, não pela frequência cotidiana, mas pela adequação a ocasiões específicas de lazer, socialização e conveniência.
Mais do que uma data festiva, o Carnaval funciona como um laboratório de sazonalidade, revelando quais categorias conseguem capturar valor quando o consumo sai do padrão habitual.
Queijo coalho e churrasco: quando o contexto define a demanda
Entre os lácteos mais associados ao período está o queijo coalho, fortemente conectado a churrascos, praia e consumo ao ar livre. À medida que o Carnaval se aproxima, a dinâmica de compra tende a se intensificar, especialmente em regiões turísticas e cidades com forte tradição de festas populares.
Esse protagonismo está menos ligado ao produto em si e mais ao contexto de uso, sustentado por três características-chave:
- consumo coletivo e compartilhado;
- preparo simples e rápido;
- bom desempenho em ambientes externos e altas temperaturas
Para a indústria, esse movimento exige atenção redobrada ao planejamento produtivo e à distribuição. Em períodos de alta concentração de demanda, falhas logísticas não apenas reduzem vendas, mas comprometem a presença da marca em momentos de alto giro no varejo tradicional, atacarejos e pontos de venda temporários.
Além do queijo coalho, manteiga e queijos de uso culinário também se beneficiam do aumento de refeições compartilhadas, reforçando o papel do lácteo como base alimentar em momentos de lazer e convivência.
Novas leituras de uso
Outro deslocamento típico do Carnaval está no uso de leite condensado e creme de leite, que passam a integrar batidas, drinks e sobremesas de preparo rápido. Nesse período, esses produtos deixam de ocupar apenas o papel de ingredientes culinários tradicionais e passam a compor experiências de consumo ligadas ao entretenimento.
O que se observa é uma valorização de atributos como:
- indulgência;
- praticidade;
- versatilidade de uso.
Esse uso “fora da função original” amplia o olhar da indústria sobre oportunidades de inovação, comunicação e desenvolvimento de embalagens mais alinhadas a ocasiões específicas. O Carnaval, nesse sentido, ajuda a revelar novas leituras de uso para categorias já consolidadas.
O Carnaval como leitura estratégica para a indústria láctea
Mais do que volumes concentrados em poucos dias, o Carnaval oferece aprendizados estratégicos relevantes. Ele evidencia como o consumidor responde a contextos de exceção e quais produtos conseguem manter relevância mesmo fora do consumo tradicional.
Do ponto de vista industrial, o período ajuda a estruturar reflexões importantes:
- Quais categorias demonstram maior sensibilidade a mudanças de ocasião?
- Onde surgem os principais gargalos operacionais e logísticos?
- Quais canais ganham protagonismo no curto prazo?
Essas leituras ganham ainda mais importância em um cenário de margens pressionadas, no qual eficiência operacional e inteligência de mercado fazem diferença real.
O que observar no comportamento de vendas no Carnaval
Para indústria e varejo, alguns indicadores ajudam a qualificar essa leitura sazonal:
- Desempenho por categoria: variação no giro de produtos como queijo coalho, manteiga, leite condensado e creme de leite.
- Concentração regional: diferenças de comportamento entre cidades turísticas, capitais e polos de festa.
- Canal de venda: maior relevância de mercados de bairro, atacarejos e pontos temporários.
- Tamanho de embalagem: preferência por formatos familiares ou multipacks.
- Ruptura e reposição: impacto da logística em períodos de demanda concentrada.
- Consumo por ocasião: aumento da compra imediata e ajuste do estoque doméstico no pós-evento.
Essas observações ajudam a calibrar decisões futuras, não apenas para o Carnaval, mas para outras datas sazonais ao longo do ano.
Um aprendizado que vai além da folia
Ao observar o Carnaval sob a lente do comportamento de consumo, fica claro que o setor lácteo mantém sua relevância mesmo quando a rotina alimentar se transforma. Produtos que entregam conveniência, versatilidade e conexão cultural tendem a ganhar espaço — da grelha ao copo.
Para a indústria, entender esses movimentos não é apenas reagir à sazonalidade, mas antecipar tendências, fortalecer portfólios e construir estratégias alinhadas aos diferentes momentos de consumo ao longo do ano.
Entender movimentos sazonais como o Carnaval é parte de uma agenda maior: ler o consumidor, antecipar tendências e tomar decisões cada vez mais estratégicas em um mercado em transformação. (Milkpoint)
Produção de leite brasileira tem menor emissão por litro de leite produzido que a média global
Pesquisa conduzida em 28 fazendas brasileiras mostra que a emissão por litro de leite no país é significativamente inferior à média mundial. A maior produtividade das vacas é um dos principais fatores que explicam esse desempenho.
A pecuária leiteira brasileira emite, em média, menos da metade dos gases de efeito estufa registrados na produção mundial quando se considera o volume produzido. A pegada de carbono no Brasil foi estimada em 1,19 kg de CO² equivalente (CO²eq) por quilo de leite, enquanto a média global é de 2,5 kg de CO²eq por quilo.
Os dados são de um estudo conduzido por pesquisadores da USP e da Embrapa Gado de Leite, com apoio da Cargill, que avaliou 28 fazendas em sete estados brasileiros. O levantamento envolveu 24,3 mil animais, responsáveis por uma produção anual de 162,1 milhões de litros — cerca de 0,45% da produção nacional.
Para permitir comparações internacionais, o cálculo considerou o leite corrigido para gordura e proteína, metodologia adotada globalmente.
A principal variável associada à menor intensidade de emissões no Brasil é a produtividade animal. Quanto maior a produção por vaca, menor tende a ser a emissão por litro de leite. Propriedades com produção superior a 25 litros por vaca por dia, por exemplo, apresentaram pegada média de 0,9 kg de CO²eq por quilo de leite — aproximadamente 25% abaixo da média nacional.
A relação é direta: sistemas mais eficientes diluem as emissões totais ao longo de um volume maior de produção, reduzindo a intensidade de carbono do produto final.
O estudo também identificou variações entre biomas. O Pampa apresentou a menor pegada média (0,99 kg de CO²eq/kg de leite), seguido pelo Cerrado (1,12 kg de CO²eq/kg de leite), Mata Atlântica (1,19 kg de CO²eq/kg de leite) e Caatinga (1,5 kg de CO²eq/kg de leite).
A análise considerou todas as etapas da cadeia produtiva, desde a produção de grãos utilizados na ração até o manejo de resíduos, metodologia conhecida como Análise de Ciclo de Vida (ACV).
Do total de emissões associadas à atividade, 47% são provenientes da fermentação entérica — processo digestivo natural dos ruminantes. A produção de alimentos para ração responde por 36,8%, enquanto o manejo de dejetos representa 8,1% das emissões totais.
“A mensuração precisa das emissões de gases de efeito estufa permite que produtores busquem práticas e tecnologias baseadas em ciência, para aumento da eficiência e redução da pegada de carbono do leite, melhorar a competitividade do setor e alinhar-se a compromissos de mitigação das emissões”, afirma Vanessa de Paula, analista da Embrapa Gado de Leite.
Ferramentas de modelagem nutricional têm sido utilizadas para formular dietas mais precisas, com potencial de reduzir a produção de metano entérico. Estratégias de micronutrição também contribuem para melhorar o status sanitário dos animais, elevando produtividade e bem-estar — fatores que impactam diretamente na redução da intensidade de emissões por litro produzido.
As informações são do Globo Rural, adaptadas pela equipe MilkPoint.
Cartão de crédito vira termômetro fiscal da Receita Federal
O cartão de crédito, que antes era visto apenas como um facilitador do consumo, afinal, permitia parcelar despesas e ganhar tempo para organizar a vida financeira, hoje mantém essas funções, mas assume também um novo papel: o de verdadeiro termômetro fiscal.
Com a digitalização dos pagamentos, a Receita Federal passou a operar em outro patamar. A concentração está no cruzamento inteligente de dados, que compara renda declarada, faturamento informado, notas fiscais emitidas, movimentação bancária e o uso do cartão de crédito.
Existe uma percepção comum de que a Receita “apertou o cerco”. Na prática, o que mudou foi a capacidade de leitura dos dados. Com menos uso de dinheiro em espécie e mais pagamentos rastreáveis, o Fisco passou a enxergar aquilo que antes ficava disperso.
E aqui vale um ponto importante: a Receita não olha compras isoladas, nem está interessada no cafezinho do dia a dia. O que chama atenção é o conjunto da obra. Quando o padrão de consumo não conversa com a renda oficialmente declarada, o sistema acende o alerta.
Existe um discurso recorrente de que “só os grandes são fiscalizados”. Na teoria, parece fácil. Na prática, não é bem assim. Quem mais sente os efeitos desse modelo são MEIs, autônomos, trabalhadores informais e pequenos empreendedores. Especialmente aqueles que misturam finanças pessoais com as do negócio, não emitem nota de tudo ou usam o cartão pessoal para bancar despesas profissionais.
Por coincidência, ou talvez não, conversei recentemente com um prestador de serviços que atuava como MEI, mas não declarava a totalidade da sua receita. O desenquadramento de sua inscrição como MEI veio justamente a partir desses cruzamentos: movimentação no cartão, valores entrando na conta, faturamento declarado incompatível com a realidade. Resultado? Exclusão do regime e cobrança retroativa de impostos.
Outro hábito comum que merece atenção é emprestar o cartão de crédito a terceiros. Para a Receita, não existe “foi meu irmão”, “foi um amigo” ou “depois ele me pagou”. A despesa sempre recai sobre o CPF do titular.
Se os gastos superarem a renda declarada, cabe ao contribuinte provar que houve reembolso. Sem documentação, o valor pode ser tratado como renda não declarada. É um detalhe que parece pequeno, mas que pode virar um problemão.
Não, isso não é perseguição, nem fiscalização abusiva. É consequência direta de um sistema que se tornou mais digital, integrado e automático. Organização, divisão de contas, emissão de notas e registro de reembolsos não são “excesso de zelo”, são uma necessidade básica.
No fim das contas, o recado é simples e até meio irônico: nunca foi tão difícil esconder informações. E, diferentemente de antes, não porque o fiscal está olhando, mas porque os dados estão mostrando. E dados não esquecem, não se confundem e não aceitam desculpas que não estão documentadas. (Jornal do Comércio)
Jogo Rápido
Termo “leite” em embalagens
O plenário da Câmara dos Deputados pode votar nas próximas sessões o Projeto de Lei 10.556/2018, que proíbe o uso da palavra “leite” em embalagens e rótulos de alimentos que não tenham origem animal. A proposta também reserva exclusivamente para derivados lácteos termos como queijo, manteiga, requeijão, creme de leite e bebida láctea. A matéria tramita em regime de urgência e, por isso, pode ser analisada diretamente no plenário, sem passar pelas comissões permanentes da Casa.(Jornal do Comércio)