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03/02/2026

Porto Alegre, 03 de fevereiro de 2026                                                    Ano 20 - N° 4.566


SOMBRA E ÁGUA FRESCA

Com estresse térmico provocado pelas altas temperaturas, o que mais as vacas precisam no verão é hidratação e lugar para proteção dos raios solares

O calor escaldante do verão gaúcho impede não apenas a produção de leite no Estado. Com temperaturas acima dos 40°C, registradas nos últimos dias pelo MetSul em algumas regiões, as vacas leiteiras sofrem com o estresse térmico, o que compromete o bem-estar animal e impacta diretamente a produtividade de um setor responsável por cerca de 4 bilhões de litros de leite ao ano e um rebanho de 944,2 mil unidades no Rio Grande do Sul. A zona de conforto térmico das vacas leiteiras varia, em geral, entre 5°C e 25°C, faixa em que há maior produção sem estresse, explica, segundo a médica veterinária e fiscal estadual agropecuária Raquel Cannavó. Fora dessas condições, o animal passa a acionar mecanismos para manter o equilíbrio fisiológico, reduzindo o volume de lactação.

No RS, o problema é mais acentuado, porque predomina a criação de raças de origem europeia, como Holandesa e Jersey, que representam, conforme a Emater/RS-Ascar, 95% do material genético nas propriedades. “As condições mais adequadas para os bovinos de origem europeia correspondem à temperatura média mensal inferior a 20°C em todos os meses e umidade relativa do ar variando entre 50% e 80%. A temperatura crítica, que vai variar a partir do peso do animal, está entre 24°C e 26°C para a raça Holandesa e entre 27°C e 29°C para a Jersey”, explica. A partir dessa faixa, pode ocorrer o chamado estresse térmico, quando o calor gerado pelo organismo, somado ao calor absorvido do ambiente, é maior que a capacidade de dissipação.

“Animais nesta condição vão apresentar aumento da frequência respiratória, aumento da temperatura corporal (hipertermia), redução na ingestão de alimentos e aumento da ingestão de água, assim como menor eficiência de utilização dos nutrientes”, descreve a veterinária.

Uma das consequências é a possível redução na produção de leite, em torno de 15% a 20%, e alteração na qualidade, incluindo a diminuição na porcentagem de gordura.

O assistente técnico estadual da Bovinocultura Leiteira da Emater Jaime Reis afirma que a situação fica ainda mais grave quando a umidade relativa do ar está elevada, porque o animal encontra dificuldade para realizar os mecanismos de dissipação de calor. Para minimizar os efeitos, o manejo adequado é decisivo.

MANEJO

Reis assegura que a primeira medida a ser oferecida aos animais é “sombra e água fresca”. O sombreamento pode ser artificial ou natural. O animal pode ficar sob a copa das árvores ou sob telas de sombreamento. É fundamental que haja água disponível e de qualidade para regular a temperatura interna. Quando possível, evitar movimentar os animais nos períodos mais quentes do dia, assim como evitar os horários de maior radiação solar.

“Tem produtores que preferem soltar o gado de noite para pastejar, quando não tem tanto problema, como segurança. Os animais conseguem pastar mais”, relata.

Quando o sistema for confinado, um ventilador pode ajudar muito. “A ventilação natural ou forçada dentro de um galpão também é importante em temperaturas elevadas e alta umidade do ar, pois promove a remoção de calor e umidade e o excesso de calor e a combinação de ventiladores e aspersores, os quais se borrifa água nos animais e subsequentemente se joga vento, causando resfriamento evaporativo e queda da temperatura corporal”, destaca Raquel Cannavó.

Em razão da redução do consumo de alimento pelas vacas neste período, ela observa que se faz necessário oferecer uma dieta com maior densidade de nutrientes, para evitar a queda na produção, além de ajuste nos horários de trato, fornecendo a maior parte do alimento nos períodos mais frescos do dia para incentivar o consumo de matéria seca.

EFEITOS

Os efeitos, segundo o secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios do RS (Sindilat), Darlan Palharini, dependem muito de propriedades mais tecnificadas, como as de produção intensiva. “As propriedades maiores não sofrem tanto”, lembra que a maioria trabalha no sistema Compost Barn, que é a produção de leite com gado confinado e que normalmente usa ventilação mecânica para reduzir a temperatura do ambiente.

Os técnicos da Emater já observaram a adoção dessas estratégias em diversas regiões do Estado neste ano. Mesmo assim, já houve registros de redução na produção em situações de estresse térmico mais intenso. (Correio do Povo)


Sistemas silvipastoris estão entre indicados

Embrapa constatou que aproximadamente 300 árvores por hectare foi suficiente para reduzir a temperatura de superfície das pastagens

Dentre as estratégias que podem ser adotadas para minimizar os efeitos das ondas de calor nas vacas leiteiras, estão os sistemas silvipastoris, que integram árvores, pastagem e gado na mesma área. Pesquisas da Embrapa indicam que o manejo garante mais conforto térmico aos animais e um maior benefício ambiental. “Um conjunto de resultados de pesquisa e de evidências demonstra que os sistemas silvipastoris são extremamente positivos do ponto de vista de produtividade do bovino criado a pasto, do ponto de vista de produção de água, de elevação do bem-estar animal e também impacta positivamente nas fertilidades dos animais”, resume o pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste Alexandre Rossetto Garcia.

Ele destaca que esse assunto tem tomado mais importância devido à frequência das ondas de calor. “A questão que essas ondas estão se tornando mais frequentes e cada vez mais intensas no Brasil e isso é um fato cientificamente constatado”, afirma, observando que isso demanda muito mais atenção desse setor, que conta com um rebanho dedicado à produção leiteira por volta de 37 milhões de animais no país, sendo 15 milhões de vacas ordenháveis, a maior parte criada em sistemas a pasto. “Torna o Brasil um dos países detentores dos maiores rebanhos leiteiros do mundo.”

As pesquisas da Embrapa mostram que a presença das árvores em uma densidade de aproximadamente 300 unidades por hectare foi suficiente para reduzir significativamente a temperatura da superfície das pastagens. “O mais interessante é que, da mesma forma como acontece nas cidades, a formação das ilhas de calor, de áreas de retenção de calor extremo, também acontece nas áreas de pastagem”, salienta Garcia. Além disso, o sombreamento natural reduziu em 26% a busca por bebedouros pelos animais. “Traz a elevação do bem-estar, porque, a depender da configuração e da densidade arbórea, tem uma redução de temperatura do ar, que pode variar de 0,5°C a 1,5°C.”

O uso das modalidades que integram de forma planejada a pastagem e as árvores confere, ainda, além do sombreamento, aumento da fixação de carbono por conta da produção de gramíneas ou mesmo de leguminosas, quando são associadas. Outro ponto vantajoso é o incremento da biodiversidade.

GENÉTICA

A Embrapa também recomenda o melhoramento genético. “A gente identifica os animais mais resistentes às altas temperaturas. Em geral, os animais de raças zebuínas, como Gir, por exemplo, ou Girolando. Eles são mais resistentes e mais tolerantes ao calor. Mas também é importante trabalharmos com adaptação de animais dentro das raças”, diz o pesquisador.

Por isso, segundo Garcia, é fundamental identificar os animais mais termotolerantes e os genotipar para que eles sejam multiplicados dentro dos programas de melhoramento genético, com aplicação na resistência ao calor, por exemplo.

FERTILIDADE

Outro fator influenciado pelo estresse térmico é a fertilidade. “O parênquima testicular dos touros produzidos à sombra é menos afetado ao longo do tempo pelo calor e, portanto, tem funcionamento melhor.” Já as vacas mantidas em áreas arborizadas produzem embriões com expressão gênica de maior crescimento. “Então, a gente pode deduzir que um efeito direto do ambiente e do bem-estar animal também sobre os embriões produzidos”, salienta o pesquisador. (Correio do Povo)

Colina além das vitaminas: o papel do leite nesse nutriente 

Conhecida como “vitamina J”, a colina é nutriente essencial reconhecido por órgãos internacionais e está presente no leite e derivados.

A colina é um nutriente essencial para o funcionamento do organismo e, embora costume ser chamada de “vitamina J”, não é classificada oficialmente como vitamina nos sistemas tradicionais de nutrição.
Ainda assim, seu papel metabólico é amplamente reconhecido por instituições de referência em saúde e ciência.

De acordo com órgãos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH), apenas as vitaminas dos complexos A, C, D, E, K e B integram oficialmente as tabelas vitamínicas. A colina, por sua vez, foi classificada como nutriente essencial pelo Institute of Medicine, ligado às Academias Nacionais de Ciências dos EUA, em 1998, devido às suas funções vitais e à semelhança funcional com vitaminas do complexo B.

No organismo, a colina atua diretamente no metabolismo de gorduras no fígado, ajudando a prevenir o acúmulo de lipídeos hepáticos. Também participa da formação de fosfolipídios, componentes fundamentais das membranas celulares, e é indispensável para a síntese da acetilcolina, neurotransmissor associado à memória, ao aprendizado e ao controle muscular.

Outro papel relevante da colina está na regulação da homocisteína, aminoácido relacionado ao risco cardiovascular quando presente em níveis elevados. Durante a gestação, sua importância se amplia: o nutriente contribui para o desenvolvimento do cérebro fetal, sendo considerado estratégico para a saúde materno-infantil.

Embora o corpo humano consiga produzir pequenas quantidades de colina, essa síntese endógena não é suficiente para atender às necessidades diárias. Por isso, a ingestão por meio da alimentação é considerada indispensável.

É nesse ponto que os alimentos de origem animal, especialmente os lácteos, ganham relevância. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), as principais fontes alimentares de colina incluem gema de ovo, fígado bovino e de frango, carnes magras, peixes como salmão e bacalhau, além de leite e derivados. Esses produtos apresentam concentrações mais elevadas do nutriente quando comparados às fontes vegetais.

Entre os alimentos de origem vegetal, que oferecem quantidades menores de colina, destacam-se soja e derivados, feijão, grão-de-bico, brócolis, couve-flor, quinoa e amendoim. Ainda que contribuam para a ingestão total, geralmente não alcançam os mesmos níveis observados nos alimentos de origem animal.

As recomendações internacionais indicam ingestões diárias adequadas de colina que variam conforme o perfil populacional: cerca de 550 mg por dia para homens adultos, 425 mg para mulheres adultas, aproximadamente 450 mg para gestantes e 550 mg para lactantes. Esses valores podem variar de acordo com idade e condições específicas de saúde.

Mesmo fora do grupo oficial das vitaminas, a colina segue consolidando seu espaço como nutriente-chave na discussão sobre alimentação equilibrada — e os lácteos, mais uma vez, aparecem como parte consistente dessa narrativa nutricional.

*Escrito para o eDairyNews, com informações de Revista Fórum


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