Porto Alegre, 13 de janeiro de 2025 Ano 20 - N° 4.552
Preço do leite ao produtor tem queda de cerca de 30% e preocupa cadeia leiteira no Rio Grande do Sul
A queda no preço do leite pago ao produtor rural tem acendido um sinal de alerta no início de 2026 no Rio Grande do Sul. Segundo o secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados (Sindilat), Darlan Palharini, a redução nos valores pagos ao produtor começou a se intensificar a partir de setembro de 2025 e está diretamente ligada ao forte aumento da produção, tanto no Estado quanto no país, aliado ao crescimento das importações de derivados lácteos de países vizinhos.
De acordo com o levantamento do setor, a produção de leite no Rio Grande do Sul cresceu 12% em 2025 em comparação com o ano anterior, enquanto a produção nacional teve aumento médio de 8%. Esse avanço, no entanto, não foi acompanhado pelo consumo, que cresce cerca de 1% ao ano. O cenário resultou em um descompasso entre oferta e demanda, pressionando os preços pagos aos produtores.
A situação se agrava com o aumento das importações de produtos lácteos, especialmente da Argentina e do Uruguai. Até 2022, esses produtos representavam cerca de 2% do consumo nacional, percentual que saltou para 9% em 2025. Boa parte dessas importações, conforme Darlan, envolve leite em pó e queijo mussarela, adquiridos principalmente por indústrias de chocolate e grandes redes de supermercados, o que amplia os estoques internos e reduz ainda mais o espaço para a produção nacional.
Entre as reivindicações do setor lácteo ao Governo Federal estão a adoção de uma política de benefício tributário para empresas de alimentos que usam o leite em pó nacional e uma sobretaxa de 50% para a entrada de produtos como leite em pó, manteiga, soro e mussarela provenientes da Argentina e do Uruguai.
Atualmente, os valores pagos ao produtor, conforme referência do Conseleite, variam entre R$ 1,85 e R$ 2,15 por litro, dependendo do volume entregue e da indústria compradora. Em agosto do ano passado, esses valores chegavam a patamares entre R$ 2,60 e R$ 3,10, o que representa uma queda próxima de 30% em poucos meses.
Segundo o Sindilat, esse preço já não cobre os custos de produção em muitos sistemas, colocando em risco a sustentabilidade de parte das propriedades. A expectativa do setor é de estabilidade nos preços ao longo de janeiro e início de fevereiro, período tradicionalmente marcado por menor consumo devido às férias escolares.
A projeção mais otimista aponta para uma possível recuperação a partir de março, com a retomada das atividades econômicas e do calendário escolar, que eleva a demanda por lácteos. Ainda assim, o Sindilat alerta que 2026 começa de forma delicada para o produtor, e que a recuperação dos preços será decisiva para evitar o abandono da atividade leiteira e garantir a permanência das famílias no campo. CLIQUE AQUI para ouvir a entrevista. (Rádio Caxias)
EUA: novas diretrizes alimentares reforçam o papel dos lácteos na saúde
A Casa Branca transmitiu uma mensagem direta ao consumidor americano: “Comam comida de verdade.” O lançamento das Dietary Guidelines for Americans 2025–2030 marca o que vem sendo descrito como o ajuste mais significativo da política federal de nutrição em décadas, com uma mudança clara na hierarquia dos alimentos recomendados e impactos diretos para a cadeia produtiva de proteínas e laticínios.
“Estamos finalmente colocando a comida de verdade de volta no centro da dieta americana. Comida de verdade que nutre o corpo, restaura a saúde, abastece a energia e constrói força”, afirmou a secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins.
Segundo ela, a nova abordagem também valoriza a capacidade produtiva do campo americano: "Essa mudança também se inclina para a oferta de alimentos abundantes, acessíveis e saudáveis já disponíveis através dos incríveis agricultores e pecuaristas da América. Ao produzir leite, criar gado e cultivar frutas, vegetais e grãos saudáveis, eles detêm a chave para resolver nossa crise nacional de saúde”.
A nova pirâmide alimentar praticamente inverte o modelo difundido desde os anos 1990. No topo estão as proteínas, com recomendação de ingestão entre 1,2 e 1,6 gramas por quilo de peso corporal por dia, acima dos 0,8 gramas sugeridos anteriormente. Em seguida aparecem laticínios e gorduras saudáveis, depois vegetais e frutas. Grãos integrais passam a ser limitados a duas a quatro porções ao dia, enquanto açúcares adicionados e óleos altamente processados devem ser evitados.
De acordo com Sigrid Johannes, da diretora executiva de assuntos governamentais da National Cattlemen’s Beef Association, para indivíduos que sigam o limite superior de proteína, representa um aumento de 100% na ingestão diária recomendada de proteína em relação às diretrizes anteriores.
Lácteos ganham protagonismo
Um dos pontos de maior relevância para a cadeia leiteira é o reconhecimento explícito dos laticínios em todos os níveis de gordura. Pela primeira vez, a orientação nutricional federal dos EUA apoia o consumo de leite integral, queijos e manteiga sem a distinção negativa associada ao teor de gordura.
“Uma das mensagens principais que estão transmitindo aos consumidores é: coma laticínios e coma laticínios em todos os níveis de gordura — isso inclui leite integral, queijo e manteiga”, destacou Matt Herrick, da International Dairy Foods Association (IDFA), classificando o momento como “um momento decisivo significativo”.
Na mesma linha, Gregg Doud, presidente e CEO da National Milk Producers Federation, reforçou que o reconhecimento simultâneo da gordura e da proteína oferece uma leitura mais fiel do valor nutricional dos lácteos. “Nem todas as gorduras são criadas iguais e, como as diretrizes reconhecem isso, os benefícios dos laticínios são melhor refletidos nesta iteração das diretrizes”, afirmou.
O documento também mantém a recomendação de três porções diárias de laticínios, destacando que os produtos lácteos são fonte relevante de proteína, gorduras, vitaminas e minerais. Esse reposicionamento dialoga diretamente com o comportamento do consumidor. Segundo Herrick, o queijo cottage atingiu seu maior nível de consumo desde a década de 1980, impulsionado pela busca por alimentos ricos em proteína.
“Os consumidores estão olhando para os rótulos mais do que nunca e tentando encontrar alimentos mais limpos e menos processados. Os laticínios se encaixam nesse perfil”, disse Herrick. “A maioria dos produtos tem apenas um punhado de ingredientes e todos são ricos em proteína”.
Esse movimento também se reflete na indústria. Entre 2022 e 2025, cerca de US$ 8 bilhões foram investidos em novas plantas de processamento, com previsão de mais US$ 11 bilhões até 2028, acompanhando o crescimento da demanda por proteínas lácteas e gorduras consideradas saudáveis.
Proteína animal no centro do debate
As novas diretrizes também reforçam o papel da carne e das aves como fontes nutricionais estratégicas. Para Julie Anna Potts, presidente do Meat Institute, a mensagem ficou mais simples e objetiva. “Evidências científicas robustas demonstram que a carne é uma fonte rica em proteínas de alta qualidade, vitaminas essenciais e minerais altamente biodisponíveis que apoiam a saúde humana ao longo da vida”, afirmou.
As diretrizes também recomendam que alimentos densos em nutrientes, incluindo carnes, sejam introduzidos precocemente na alimentação infantil e mantenham papel central ao longo da infância.
Frutas, vegetais e alimentos minimamente processados
Apesar do destaque às proteínas e aos laticínios, frutas e vegetais continuam ocupando espaço central. O documento recomenda três porções diárias de vegetais e duas de frutas, priorizando o consumo “em sua forma original”.
As diretrizes também orientam a redução de alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas e excesso de sódio, ponto elogiado pela Associação Médica Americana. “As diretrizes afirmam que a alimentação é um remédio e oferecem orientações claras que pacientes e médicos podem usar para melhorar a saúde”, disse Bobby Mukkamala.
Críticas e controvérsias
Nem todos os especialistas concordam com o novo direcionamento. Marion Nestle, ex-professora da Universidade de Nova York, afirmou que o incentivo ao consumo de proteína não faz sentido, argumentando que os americanos já consomem quantidades suficientes. Segundo ela, "Com exceção da excelente recomendação de reduzir o consumo de alimentos altamente processados, que não eram particularmente comuns naquela época, essas diretrizes nos remetem às dietas da década de 1950, quando todos consumiam muita carne e laticínios e não se preocupavam muito com vegetais, e as doenças cardíacas eram desenfreadas".
A Associação Americana do Coração também demonstrou preocupação. Embora tenha apoiado a ênfase em frutas, vegetais e grãos integrais, alertou: "Estamos preocupados com o fato de que as recomendações sobre o tempero com sal e o consumo de carne vermelha possam, inadvertidamente, levar os consumidores a exceder os limites recomendados de sódio e gorduras saturadas, que são os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares."
Implicações para a cadeia produtiva
Além do aspecto nutricional, as diretrizes sinalizam impactos estruturais no sistema alimentar. Rollins antecipou mudanças nos padrões de estoque do varejo vinculado ao SNAP (Supplemental Nutrition Assistance Program, programa federal de auxílio alimentar dos EUA) , com o objetivo de ampliar o acesso a alimentos integrais e saudáveis. “Isso significa que opções mais saudáveis estarão ao alcance de todas as famílias americanas, independentemente das circunstâncias”, afirmou.
No segmento de grãos e oleaginosas, entidades como a American Soybean Association e a National Oilseed Processors Association defenderam o papel da soja e dos óleos vegetais, ressaltando que o farelo é componente essencial das dietas de bovinos, aves e suínos, apoiando a produção de carne, leite e ovos acessíveis.
No conjunto, as novas diretrizes alimentares dos Estados Unidos reposicionam a proteína e os laticínios no centro da alimentação, reforçando sua relevância nutricional e econômica. Para a cadeia leiteira, o documento representa não apenas um reconhecimento científico, mas também um sinal claro de alinhamento entre saúde pública, consumo e produção de alimentos considerados essenciais. (As informações são da USDA, BBC, Dairy Herd Managemen e Hoard's Dairyman)
Teste identifica leite livre de proteína ligada à má digestão
A startup brasileira Scienco Biotech desenvolveu e patenteou uma tecnologia capaz de identificar o tipo de leite que é livre de uma proteína associada à má digestão. Trata-se de um teste realizado logo após a ordenha do animal, semelhante ao de gravidez.
O teste rápido da Scienco pode ser feito pelo próprio pecuarista, com um pingo de uma amostra de leite, e o resultado sai na hora, segundo a veterinária Maria de Lourdes Magalhães, criadora do teste e CEO da startup. Ela observa que, no modo convencional, esse processo é feito por meio da análise do DNA dos animais, com testes laboratoriais “caros e demorados”.
As vacas podem produzir leite com a proteína A1, relacionada à má digestão, ou a proteína A2, que não está associada ao problema e é a mesma encontrada no leite materno. O leite A2 provém de vacas com o gene A2A2 e não promove a formação da beta-casomorfina-7 (BCM-7), associada a possíveis desconfortos digestivos e presente no leite A1, explica Diana Jank, diretora de marketing da Letti.
A Letti pertence ao grupo Agrindus, um dos maiores produtores de leite do Brasil, e fabrica produtos lácteos apenas com a proteína A2, utilizando outra tecnologia para identificação.
Gustavo Silva, diretor de inovação da Scienco Biotech, vê potencial para “revolucionar” a cadeia de leite no Brasil com os testes rápidos. “São simples e de baixo custo. Podemos acelerar a tomada de decisão dos pecuaristas”, afirma.
Atualmente, cerca de 1.900 fazendas no Brasil, Colômbia e Coreia do Sul, já utilizam o teste da Scienco. Agora, a empresa começou a vender o teste no mercado da Nova Zelândia, país onde o leite A2 foi identificado pela primeira vez na década de 1990, e onde esse leite começou a ser comercializado em 2003.
Segundo Maria de Lourdes Magalhães, a chegada à Nova Zelândia é um divisor de águas porque, além de pioneiro, o país exporta para a China, que tem alta demanda pelo leite A2, e onde é utilizado na fabricação de fórmulas infantis.
No Brasil, a maior parte dos pecuaristas não costuma identificar o tipo de leite e acaba misturando a produção do rebanho e comercializando tudo como leite A1, que pode causar o desconforto digestivo. “Com a identificação, o produtor pode separar o leite das vacas A2 e vendê-lo de forma diferenciada”, diz ela.
Os pecuaristas que fazem a segregação recorrem a testes de laboratório. No início de 2025, a Scienco recebeu um investimento de R$ 1,8 milhão da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para desenvolver um novo teste que identifica leites com maior rendimento para produzir queijos. Magalhães afirma que a tecnologia já está em operação em cerca de 20 fazendas.
“O teste identifica de forma instantânea as vacas que produzem um leite com melhor capacidade de coagulação na produção de queijo, que resulta em um rendimento até 30% maior, com menos perdas e maior padronização na fabricação de queijos”, explica a CEO da Scienco.
Para 2026, o objetivo é lançar uma terceira tecnologia que identifica resquícios de antibiótico no leite. A projeção da Scienco é alcançar cerca de R$ 2 milhões de faturamento com a consolidação das tecnologias. (Gloro Rural)
Jogo Rápido
Julgamentos tributários
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, pautou para os meses de fevereiro e março julgamentos que têm grande impacto para a União e empresas. Só três ações tributárias somam um risco fiscal estimado em R$ 72,8 bilhões pela Receita Federal. A pauta dos dois meses também foi divulgada sem prever o julgamento da chamada “uberização” das relações trabalhistas, aguardado para este ano. O caso com maior impacto sobre as contas públicas é o que discute se o ISS, imposto municipal, integra a base de cálculo do PIS/Cofins. (Jornal do Comércio)